Precisão cirúrgica

 

A epilepsia é uma doença do cérebro que atinge 1,5% da população brasileira, ou seja, três milhões de pessoas. As crises típicas da enfermidade costumam ser controladas por medicamentos que funcionam em até 70% dos casos. Estudos atestam que cerca de um milhão de pessoas possuem a forma refratária de epilepsia, cujo controle é mais difícil através de remédios. Quando a doença foge desse controle, a intervenção cirúrgica pode se fazer necessária.  Uma das técnicas cirúrgicas mais eficazes do segmento já está sendo realizada em Natal, o que pode garantir aos portadores uma melhor qualidade de vida.

Precisão cirúrgica

As síndromes epilépticas com crises focais, aquelas que se iniciam em uma região definida do cérebro, tendem a ser mais resistentes ao tratamento clínico do que aquelas com crises generalizadas, segundo o neurocirurgião Thiago Rocha (CRM 6233/RQE 2222). “Há trabalhos descritos na literatura que fazem esse comparativo,  mostrando que no caso da esclerose hipocampal, apenas 11% dos pacientes ficaram livres de crises após um ano de tratamento. Portanto, o prognóstico para o controle de crises tem relação com o tipo e a causa da epilepsia”, explica.

Boa parte dos pacientes que não responde ao tratamento clínico porta epilepsia  refratária. Esta se caracteriza por ser fármacorresistente, de difícil controle. Nela, o paciente usa dois medicamentos antiepilépticos em doses otimizadas e mesmo assim não há controle da doença. “Trabalhos mostram que 50% dos pacientes respondem de maneira adequada ao uso de apenas um medicamento antiepiléptico. Apenas 4% respondem a introdução da terceira droga, e somente 0,8% possuem resposta ao quarto fármaco antiepiléptico. Não há benefício em se associar a mais de três drogas”, diz.

Nos casos em que há refratariedade, o paciente deverá ser orientado e encaminhado de maneira precoce ao especialista para avaliar se ele pode ser um candidato ao tratamento cirúrgico.   O objetivo da cirurgia de epilepsia é deixar os pacientes que são refratários, livres de crises ou pelo menos reduzir a frequência dessas crises, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o impacto trazido pela doença.

Técnica pioneira
Recentemente foi realizada pela primeira vez em Natal – e no Nordeste – a cirurgia baseada na estereoeletroencefalografia (SEEG), que permite localizar de maneira precisa a região cerebral onde estão sendo geradas as crises epilépticas. O maior desafio da cirurgia de epilepsia é a localização do foco epiléptico. Thiago Rocha explica que para a realização desse procedimento, é necessário uma equipe qualificada, multidisciplinar, composta por neurocirurgiões especializados em cirurgia de epilepsia, neurologistas com especialidade em neurofisiologia que tenham experiência em monitorização invasiva, equipamento de vídeo-EEG com quantidade ideal de 128 canais, bem como outros equipamentos indispensáveis ao procedimento. 

O SEEG foi descrito pela primeira vez no final da década de 50 na França. A adoção é recente no Brasil, já sendo realizado há mais tempo em São Paulo, Ribeirão Preto e Belo Horizonte. “Em Natal, com muito esforço foi possível a realização deste procedimento e isso abrirá caminhos para que novos pacientes possam se beneficiar”, afirma o neurocirurgião.  A cirurgia com a técnica foi realizada pela primeira vez no dia 13 de setembro, em Natal, na Casa de Saúde São Lucas

A técnica é realizada em duas fases. Na primeira fase é feita a implantação cirúrgica dos eletrodos em regiões cerebrais suspeitas. Na segunda fase, no dia seguinte, o paciente é monitorizado por cinco a dez dias por uma equipe de neurologistas com especialidade em neurofisiologia. “No final desse período, retiramos os eletrodos e diagnosticamos com precisão a região cerebral que está doente”, diz o médico.

Posteriormente é programada a remoção cirúrgica da área cerebral acometida pela doença. “Isso permite uma melhora considerável do prognóstico e do controle das crises. Utilizamos esse recurso quando os exames convencionais, como a ressonância de encéfalo e o vídeo-eletroencefalograma, deixarem dúvidas ou forem discordantes na localização do foco epiléptico. O SEEG é usado nos casos mais específicos, dando mais segurança à remoção cirúrgica dessas áreas cerebrais doentes”, diz.

Thiago Rocha ressalta que o objetivo das cirurgias de retirada de foco epiléptico não objetiva a retirada dos medicamentos antiepilépticos, que podem ser retirados gradualmente se o paciente permanecer sem crises durante o período de dois anos. “Vários artigos mostram que na epilepsia do lobo temporal, em torno de 58% dos pacientes ficam livres de crises no acompanhamento durante os primeiros cinco anos, e nas formas de epilepsias extra-temporais, esse índice chega a 45,1%”, explica o médico.

O procedimento foi bem-sucedido e trouxe esperança a uma paciente de 59 anos, que tinha epilepsia refratária, e  diagnóstico da doença desde os três anos de idade. A paciente já tinha tentado diversos tratamentos medicamentosos, sem controle satisfatório das crises. A área cerebral doente foi localizada com precisão e a paciente foi submetida a segundo cirurgia no final de outubro para a retirada do foco epiléptico.  “A paciente que chegou a ter 30 crises por dia antes de realizar o procedimento, agora encontra-se livre crises desde a segunda cirurgia”, disse o neurocirurgião.

Novos medicamentos
As novidades em medicamentos também estão trazendo novas expectativas positivas aos pacientes. “Os remédios à base de canabidiol se tornaram recentemente uma esperança a esses pacientes com epilepsia, principalmente os pediátricos. Aqueles que são portadores de síndromes epilépticas da infância como Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut. Nessa faixa etária, existem trabalhos com evidência científica mais forte de que possa haver benefícios. Em adultos, ainda necessita de mais estudos que demonstrem o seu real benefício”, diz.

As crises epilépticas costumam assustar as pessoas e gerar preconceito e estigma social. Mas é possível ter uma vida normal com a doença – com os devidos cuidados, claro. “O paciente com epilepsia clinicamente controlada pode e deve ter uma vida normal, exercer atividades laborativas ou acadêmicas, ter uma vida social adequada, praticar exercícios físicos, não ingerir bebidas alcoólicas, não passar noites em claro, ter uma dieta balanceada, usar regularmente os medicamentos e acompanhamento regular com seu médico”, conclui.

Fonte: Tribuna do Norte

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