Com vacinação avançada entre idosos, RN bate recorde de jovens internados em UTI da rede pública

O pico de internações foi registrado no domingo (9). — Foto: Sesap/Divulgação

Por Tiago Rebolo

O número de jovens internados com Covid-19 na rede pública de saúde bateu recorde neste fim de semana no Rio Grande do Norte. Dados da plataforma “Regula RN”, que monitora em tempo real a situação dos hospitais públicos do Estado, mostram que, desde o início da pandemia, nunca houve tantos pacientes jovens ocupando leitos críticos por causa do novo coronavírus.

Os números são abastecidos pela Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) e pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Lais/UFRN).

O pico de internações foi registrado no domingo (9). Segundo a plataforma, 57% dos leitos críticos (UTIs e semi-UTIs) ficaram ocupados por pacientes com menos de 60 anos. Em números absolutos, eram 213 pacientes só na rede pública. Os idosos, que são mais suscetíveis a desenvolver formas graves da Covid-19, eram 43% dos internados em leitos críticos, o equivalente a 160 pacientes.

Os dados representam uma inversão do cenário epidemiológico observado durante a maior parte da pandemia. Durante todo o ano de 2020 e início de 2021, os jovens eram minoria nas UTIs. Entre julho e agosto do ano passado, para se ter uma ideia, eles eram apenas 26% dos internados em estado grave na rede pública potiguar. A taxa de letalidade entre jovens também é a mais baixa, sendo inferior a 1% dos contaminados.

A realidade começou a mudar em março deste ano, quando passou a não ficar claro qual público era predominante nas UTIs. Na última semana, a presença de jovens nos leitos críticos deu o maior salto, atingindo os 57% do fim de semana. No começo da crise, jovens chegaram a representar um percentual até maior de internados em relação ao total, mas o número absoluto era baixo, pois as contaminações por Covid-19 ainda estavam no início.

A mudança na idade média dos internados chama a atenção principalmente se comparado ao histórico do número de óbitos por faixa etária. Dados do Lais/UFRN mostram que, em toda a pandemia, apenas 30% dos mortos por Covid-19 no Rio Grande do Norte tinham menos de 60 anos. Isso representa 1.689 vítimas, em um universo de 5.533 mortes por Covid-19 no Estado. O dado, porém, está desatualizado, já que o RN já chegou a 5.655 óbitos – a divisão por idade só é divulgada posteriormente.

O que explica a mudança?

Na avaliação do infectologista André Prudente, diretor do Hospital Giselda Trigueiro, referência no atendimento de pacientes com Covid-19 no Rio Grande do Norte, o aumento na proporção de jovens internados tem a ver principalmente com o avanço da vacinação.

Com a chegada da vacina para todos os que têm mais de 60 anos de idade, o número de casos e óbitos por Covid nessa faixa etária despencou – fazendo com que proporcionalmente, os jovens se tornassem maioria e os alvos mais fáceis do coronavírus.

“A vacina em idosos é de suma importância. Tem influência. Assim como teve nos profissionais de saúde. Praticamente não temos mais profissional de saúde internado com Covid”, explica o médico, ressaltando que a Covid-19 tem sido mais letal entre os idosos especialmente porque é o público ainda não vacinado.

Para Geraldo Ferreira, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN), o dado mostra a importância de se ampliar a vacinação contra a Covid-19. Hoje, além dos idosos com mais de 60 anos, só há vacinas para pessoas com doenças graves ou com alguma deficiência.

“Esse grupo de idosos que está sendo imunizado acaba sendo uma rede de proteção. Fatalmente, isso vai se refletir na transmissibilidade geral. Vai cair o número bruto de internados gerais. Já caiu para um patamar mínimo o número de profissionais de saúde que estão se contaminando”, reforça.

O também infectologista Igor Thiago acrescenta que, além de já estarem vacinados em sua maior parte, os idosos se arriscam menos. Os jovens, em contrapartida, são mais expostos ao coronavírus por estarem em idade economicamente ativa e por frequentarem ambientes mais inóspitos.

“As pessoas mais jovens, com menos de 60 anos, acabam se expondo mais porque estão indo trabalhar, indo para bares, festas clandestinas. Aqueles que têm doenças de base acabam se agravando”, argumenta o médico.

A professora Marise Freitas, do Departamento de Infectologia da UFRN, destaca que o aumento no número de jovens internados em estado grave é resultado de um somatório de fatores. Além dos fatores já mencionados, ela diz que a mudança no cenário epidemiológico pode ter relação com a circulação de variantes do coronavírus.

“Já vimos experiência do Amazonas que a variante pode ter impacto sim. Ela transmite mais e está relacionada ao agravamento de casos. É provável que ela seja um fator que favoreça o adoecimento mais grave de jovens”, salienta.

Ela defende que as pessoas mantenham os cuidados preventivos, mesmo aquelas vacinadas e mesmo os jovens, que são teoricamente menos suscetíveis.

“Algo para se pôr em questão é: o jovem acaba correndo maior risco por entender que ele tem uma chance menor de fazer formas graves? Isso pode ter contribuído. Muitos idosos viram muitos amigos e familiares morrendo. Isso chama atenção. Na hora que eu tenho pessoa próxima morrendo, isso me alerta”, enfatiza.

Números

213 (57%)
Internados em leito crítico da rede pública com menos de 60 anos

160 (43%)
Internados em leito crítico da rede pública com mais de 60 anos