Você chegou a conversar com o Andrew Parsons (ex-presidente do CPB e atual presidente do IPC) sobre isso?
Eu converso sempre com o Andrew, sobre vários assuntos. O IPC participa nesse contexto porque é organizador da Paralimpíada, mas o grande responsável por realizar o evento é o COI, ele que faz o contrato com o comitê organizador. Certamente o Andrew também está bastante preocupado com a segurança e a integridade dos atletas, mas essa decisão pertence ao Comitê Olímpico Internacional.

Como está o esporte paraolímpico do Brasil hoje?
O Brasil teve um 2019 muito positivo em resultados. O ano pré-olímpico diz muito sobre o que vai ser a participação do país nos Jogos, e o Brasil foi vice-campeão do Mundial de atletismo, perdendo apenas para a China, o que para a gente é histórico. No Mundial de natação, apesar dos problemas que tivemos com a classificação [houve várias mudanças na classificação dos atletas de acordo com seu grau de deficiência], conseguimos cinco ouros com quatro atletas diferentes, o que foi muito positivo. Nossa expectativa, considerando um cenário normal, era fazer uma grande participação nos Jogos. Hoje, com o cenário incerto e não acreditando que eles acontecerão na data precisa, é impossível fazer prognóstico, porque todos deixaram de vir ao CT. Em alguns lugares do mundo, ainda se consegue treinar, mas, em boa parte dos países, isso não é mais possível.

Um detalhe importante é que paralisamos o CT desde segunda, mas, depois da declaração do COI, os atletas, por conta própria, estão começando a procurar outros lugares, a treinar na rua, ou seja, próximo a outras pessoas, o que aumenta o risco para eles. Por isso a gente entende que essa manifestação (do COI) não foi positiva.

Qual é a recomendação do CPB para os atletas?
Se puder, fique em casa. Se puder ter isolamento, melhor. A gente estará ao lado dos atletas seja lá qual for a consequência disso tudo. Assim que tiver a possibilidade de treinar com segurança, vamos estar junto deles. O ser humano sempre vai estar antes do atleta, temos muita preocupação com isso, para que a gente possa superar essa grande crise.

Qual é o impacto do fechamento do CT na preparação dos atletas?
É muito grande. Para você ter ideia, o recesso de fim de ano foi de 15 dias, e eles voltaram à condição pré-recesso agora. Você demora quase três meses para recuperar 15 dias. Obviamente, é muito difícil dimensionar exatamente a perda, mas é muito grande. Agora estamos discutindo qual é a melhor coisa a fazer, porque eles não estão treinando aqui, mas estão se reunindo em outro lugar, e talvez menos seguro que o próprio CT. Vivemos um grande dilema sobre como podemos minimizar esses riscos.

Sem o CT, que assistência o comitê pode dar aos atletas?
Os técnicos estão tentando criar protocolos para as estruturas dos atletas em casa, nosso departamento médico (está) oferecendo orientações com bastante frequência. As bolsas pagas via comitê paralímpico não terão qualquer interferência ou interrupção.

O coronavírus oferece algum risco adicional para os atletas paraolímpicos?
Em algumas modalidades temos atletas que, em razão da deficiência, têm imunidade mais baixa ou alguma dificuldade respiratória, com riscos adicionais. Por exemplo, os atletas com lesão medular.

Você, que é bicampeão paraolímpico, já passou por algum percalço desse tipo na preparação para os Jogos?
Nada se assemelha. Óbvio que a realidade do esporte da minha época era muito diferente da que eles têm hoje. Eles são profissionais, têm uma estrutura no CT que acredito que muitos clubes de futebol profissional do país não ofereçam. Antes era muito mais amador. Felizmente, hoje as coisas melhoraram muito, e os atletas paralímpicos são o verdadeiro sentido da palavra. Mas nunca houve nada externo que pudesse impactar tanto na vida das pessoas.