BUSCAR
BUSCAR
Professora da UFRN vê riscos em reduzir intervalo para 2ª dose da vacina de Oxford: “Eficácia cai”
Professora da UFRN Janeusa Trindade, pós-doutora em Imunologia – Foto: 98 FM / Reprodução / Arquivo

Como parte da estratégia mundial para evitar o avanço da variante Delta do coronavírus, identificada originalmente na Índia, a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) confirmou nesta sexta-feira (9) que avalia reduzir o intervalo entre as duas doses da vacina contra a Covid-19 do tipo Oxford/Astrazeneca.

Ao PORTAL DA 98 FM, a pasta confirmou que o assunto está em debate e pode ser pauta da próxima reunião da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), que reúne representantes da Sesap e das prefeituras para discutir periodicamente a campanha de vacinação contra a Covid-19 no Estado. Não há prazo para que haja uma decisão sobre o tema.

Pelo País afora, pelo menos cinco estados já reduziram o intervalo da 1ª para a 2ª dose. Em Pernambuco, por exemplo, em vez de 12 semanas (84 dias), a dose de reforço passou a ser administrada após 60 dias da primeira aplicação. As autoridades de saúde justificam a decisão apontando estudos científicos que mostram que, somente com duas doses, a vacina de Oxford protege contra a variante Delta. A mesma estratégia é pensada para a vacina da Pfizer.

A medida preocupa a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Janeusa Trindade, pós-doutora em Imunologia. A especialista afirma que, apesar de oferecer maior proteção contra a variante Delta, a antecipação da 2ª dose de Oxford representa uma queda na eficácia geral da vacina – o que, associado a medidas de relaxamento na circulação de pessoas, pode comprometer a imunização coletiva.

Estudos mostram que, com um intervalo de 12 semanas entre a 1ª e a 2ª dose, a vacina de Oxford oferece proteção global de 81% contra a Covid-19. Quando é aplicada com intervalo de 60 dias, a eficácia cai para 63%. “A eficácia é menor, cai”, diz ela.

Há uma diferença, no entanto, quando se compara a eficácia da vacina para a cepa original e para a variante Delta. Na variante original, só a primeira dose já oferecia proteção de 76%. No caso da cepa indiana, cai para 30% – só chegando a uma proteção robusta após a segunda dose. Por mais que seja uma proteção menor, uma eficácia alta contra a variante Delta após segunda dose compensaria a perda da eficácia global, apontam alguns gestores.

“Estamos com uma variante nova que está sendo mostrada que é bastante agressiva. E a proteção só é suficiente quando a pessoas tem duas doses”, diz.

A especialista afirma, porém, que apenas a redução no intervalo das duas doses pode se mostrar pouco efetiva se não forem adotadas estratégias para conter a circulação de pessoas. Janeusa Trindade ressalta que, se o vírus entrar em circulação massiva no País, pode anular a estratégia de encurtar a aplicação em face da queda na eficácia.

“Não adianta fazer a redução do intervalo da dose com liberação de medidas restritivas. A contenção da pandemia é uma associação de fatores: vacinação e medidas restritivas, especialmente quando estamos com uma variante nova entrando no País. Israel vacinou um bom quantitativo com duas doses e fez liberações. Mas retomaram medidas restritivas quando houve aumento de casos. Tem que associar as duas coisas. Se for reduzir, tem que associar ao olhar para as medidas de restrição”, enfatiza Janeusa Trindade.

A professora da UFRN ressalta que “a preocupação é em relação à eficácia da vacina”. “Se faz a redução com a flexibilização, isso entra em contradição da eficácia da vacina”, aponta Janeusa Trindade, que também critica o fato de a discussão estar acontecendo no âmbito dos estados. “Não acho que tenha que ser uma discussão por estado, porque essa discussão tem que ser em nível nacional”, acrescenta.

Rua Carlos Chagas, 3466, Candelária, Natal/RN
(84) 4009-9898
[email protected]