Máfia das Apostas: quem é e como atua empresário apontado pelo MP como líder de esquema no futebol

A primeira prisão, que foi temporária, ocorreu na na operação anterior, em 14 de fevereiro. Foto: Reprodução/MPGO

Um dos três presos na segunda fase da operação Penalidade Máxima, realizada semana passada, é o empresário Bruno Lopez de Moura, considerado pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) o líder de uma organização criminosa que supostamente manipulava resultados de jogos do Campeonato Brasileiro das Séries A e B para favorecer apostadores nos sites. Essa é a segunda vez que Bruno é preso por participação no mesmo esquema. A primeira prisão, que foi temporária, ocorreu na na operação anterior, em 14 de fevereiro. Na denúncia daquela detenção de Bruno, os promotores públicos informaram que ele era o ‘cabeça’ da única gangue que foi desmantelada sobre as falcatruas.

Desta vez, o empresário de jogadores dono da BC Sport Management foi preso preventivamente, ou seja, sem previsão de soltura. A investigação apura em sigilo os novos detalhes da operação do dia 18. O Estadão teve acesso à denúncia do MP-GO resultante da primeira fase da operação e que já foi acatada pela Justiça em 16 de março. Nela, os promotores detalham a forma como o grupo atuava.

“Trata-se de atuação especializada visando o aliciamento e a cooptação de atletas profissionais (jogadores) para, mediante contraprestação financeira, assegurar a prática de determinados eventos em partidas oficiais de futebol e, com isso, garantir o êxito em elevadas apostas esportivas feitas pelo grupo criminoso em sites do ramo, como www.bet365.com e www.betano.com”, afirmou a denúncia. As duas casas de apostas são relatadas textualmente nos autos da investida do MP.

Como resultado da primeira fase da operação, em fevereiro, 14 pessoas se tornaram réus por corrupção em âmbito esportivo. Na segunda ação do MP, a da semana passada, três pessoas foram presas preventivamente e foram cumpridos 20 mandados de busca e apreensão. O Ministério Público não divulgou os nomes dos alvos da operação, mas já se sabe que os jogadores Victor Ramos, zagueiro da Chapecoense; Igor Cariús, lateral do Sport que estava no Cuiabá em 2022; Gabriel Tota, meia do Ypiranga-RS, estava no Juventude em 2022; Kevin Lomónaco, zagueiro do Bragantino; Eduardo Bauermann; e Moraes Júnior, lateral do Atlético-GO, que jogava pelo Juventude em 2022, estão entre os investigados e foram alvos de busca e apreensão.

De acordo com o MP, a investigação teve início em novembro de 2022, quando o presidente do Vila Nova, de Goiás, Hugo Jorge Bravo, denunciou o aliciamento de jogadores de seus clubes para provocar eventos específicos em jogos do time. “O citado noticiante evidenciou a atuação ilícita de Bruno Lopez de Moura na manipulação dos resultados das partidas entre Vila Nova x Sport, Tombense x Criciúma e Sampaio Corrêa x Londrina, destacando que Bruno Lopez afirmou para ele que realizara tratativas com Romário, atleta do clube, para que organizasse e providenciasse, ainda que com terceiros, o cometimento de pênalti de sua equipe no primeiro tempo da vindoura partida com o Sport Club Recife”, detalha a denúncia. A partida era válida pela 36ª rodada da Série B, realizada no dia 21 de outubro de 2022.

O esquema veio à tona porque Romário não cometeu o pênalti, frustrando as apostas, como está descrito na acusação. “Tem-se que o próprio Bruno Lopez detalhou para o presidente do Vila Nova os valores combinados com os atletas em caso de êxito e acrescentou que, como somente no jogo do Vila Nova Futebol Clube não houve o cometimento de pênalti, as apostas foram frustradas e agora ele cobrava de Romário o prejuízo em montante superior a R$ 500.000,00.”

O esquema movimentou no período compreendido pela investigação, do segundo semestre de 2022 até a data da primeira batida, mais de R$ 1 milhão somente por meio da mulher de Bruno Lopez, Camila Silva Motta, também ré no processo. “Ambos são proprietários da empresa BC Sports Management, cujas contas são frequentemente utilizadas para movimentação financeira do esquema delitivo efetuando pagamentos de sinais e valores aos jogadores cooptados, intermediadores e transitando valores também para apostas nos jogos previamente ajustados”, registra a denúncia.

Em nove meses de 2022, foram movimentados na conta de Camila R$ 1.036.160,00 a crédito e R$ 1.047.233,00 a débito. “E apurou-se que Bruno, seguidas vezes, indica valores e contas para que Camila promovesse as transferências, em conduta que perdurou até a véspera da deflagração da Operação Penalidade Máxima, tendo Camila a plena ciência de que se tratavam de valores das famigeradas ‘operações’”, afirmam os promotores de Goiás.

A audiência de custódia de Bruno foi realizada na quarta-feira, dia 19, e, segundo o seu advogado, Ralph Fraga, ele foi encaminhado para o centro de detenção provisória. Ainda de acordo com o advogado, Bruno ainda não foi citado em relação à primeira fase da operação, da qual ele já é réu. Sobre o envolvimento de seu cliente nesse esquema, Fraga diz que somente durante o interrogatório Bruno poderá se explicar.

Ele não se posicionou sobre o fato de o MP apontá-lo como líder do esquema de fraude nas casas de apostas. “A defesa não tem nenhuma observação sobre liderança porque toda essa questão de participação efetiva em organização criminosa é demonstrada durante o curso do processo.” O processo está em andamento.

Fonte: Estadão