Potiguares tentam a sorte em outros países

Fonte: Tribuna do Norte

O Ministério das Relações Exteriores estimou mais de 3,5 milhões de brasileiros espalhados pelo mundo em fevereiro deste ano.  São estudantes, trabalhadores nas mais diversas áreas, desempregados que vão tentar a sorte e outros que abriram mão de uma vida estável no Brasil para recomeçar a vida em outro país, por diversos motivos. Apesar do Itamaraty não estimar o número por Estado, uma parte desses brasileiros são potiguares. De acordo com a Receita Federal, 315 pessoas do Rio Grande do Norte saíram definitivamente do Brasil entre 2011 e 2019. 

Esse número representa a quantidade de pessoas que apresentaram a Declaração de Saída Definitiva do País (DSDP) na data de saída ou até o último dia de fevereiro do ano seguinte. O DSDP é um documento com o objetivo de apurar o imposto de renda em relação ao período que a pessoa esteve no Brasil. No entanto, segundo o Itamaraty, grande parte dos brasileiros evita se submeter a “sondagens e censos ou mesmo matricular-se nas repartições consulares, sendo, portanto, difícil fornecer um número preciso”.

O que se pode perceber, ainda de acordo com a quantidade de DSDP entregues à Receita Federal, é que o número de potiguares residindo fora do Brasil cresceu na década presente. Em 2011, 14 pessoas apresentaram o DSDP; neste ano, foram 60 pessoas – representando o maior número da década.
As razões para a saída são particulares, mas algumas são mais comuns. Em entrevista concedida ao jornal Estado de S. Paulo no mês de julho, o advogado Luiz Ugeda, do escritório Porto Advogados, em Portugal, afirma que hoje existe um desconforto de certas camadas da população brasileira com a crise que o país vive. “Não só a econômica e política, mas a de valores mesmo. Tem muita gente qualificada, dos meios acadêmicos, profissionais liberais e empresários”, declarou.

A TRIBUNA DO NORTE entrevistou alguns potiguares que vivem fora do país. Todos destacam que a segurança é uma vantagem dos países escolhidos em relação ao Brasil. “Aqui eu saio de casa sabendo que vou voltar e tudo vai estar lá”, afirmou a empresária Thalita Melo, de 34 anos, que está na Flórida, nos Estados Unidos, há 8 meses. A declaração é semelhante a todos os outros entrevistados para a reportagem.
Outro ponto em comum é não pensar em retornar ao Brasil em um futuro próximo. Rebecca Câmara, a que vive há mais tempo (3 anos) fora, entre os entrevistados, afirmou que “não troca a vida daqui por nada”. A modelo mora em Xangai, cidade mais populosa na China, e destaca que a experiência fora do Brasil é um “amadurecimento”. Esse é o maior ganho, apesar de todas as vantagens na infraestrutura do país.
Os destinos mais comuns dos brasileiros, segundo as agências de viagens, são os Estados Unidos e Portugal. O país europeu, onde o advogado Luiz Ugeda mora, possui cerca de 105,4 mil ‘zucas’ (como são chamados os brasileiros) vivendo a vida em seu território, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão responsável pela imigração no país europeu. Em 2018, o SEF afirmou que o número de brasileiros cresceu 23,4% em relação ao ano anterior.

Potiguares pelo mundo

A TRIBUNA DO NORTE conversou com três potiguares, atualmente espalhados em três continentes diferentes: América do Norte, Europa e Ásia. São três vidas com diferentes objetivos.

Rebecca Câmara saiu de Natal para trabalhar em uma agência de moda em São Paulo em 2015 e menos de um ano depois, em 2016, foi morar em Xangai, a maior cidade da China. Morou na Coréia do Sul e no Vietnã desde que saiu do Brasil nesse período e recentemente retornou para Xangai, sempre trabalhando como modelo.

Acácio dos Santos tem trajetória parecida: saiu de Natal para trabalhar em São Paulo na área de tecnologia; de lá, para a Holanda.

A outra potiguar é Thalita Melo, 34, empresária na área de micropigmentação. Depois de se reorganizar, deixou Natal, onde fica a empresa que é sócia, e foi tentar empreender no Estados Unidos com o marido e dois filhos pequenos.

Acácio e Mariana moram na Holanda há pouco mais de um ano

Acácio e Mariana moram na Holanda há pouco mais de um ano

Acácio Alves dos Santos

Idade: 34 anos

Profissão: Engenheiro de Software

Cidade/País: Amsterdã/Holanda

Motivo: TrabalhoTempo: 1 ano e 1 mês
HolandaEuropa

Área: 41.528 km²População: 17.100.475 hab.IDH: 0,931 (10º do mundo)

Saí do Brasil com a minha esposa depois de ter planejado e estudado as melhores opções. Eu nunca havia morado em outro país, só havia visitado como turista. Eu tinha a curiosidade da experiência de viver fora e vim para ter essa experiência. Eu estava morando em São Paulo havia seis anos, tinha um bom emprego e fiz entrevista para outras empresas. Até que escolhi a Holanda como destino. Eu basicamente escolhi onde morar porque o mercado de trabalho (na área de tecnologia da informação) é muito grande aqui na Europa. 

Passado o tempo que eu estou aqui, me sinto totalmente adaptado. Se você quer se reorganizar no país, você precisa aprender como as coisas funcionam. Isso me ajudou muito. Eu moro em um bom lugar, o transporte público funciona e a saúde é parecida com o modelo americano, onde você precisa ter um plano de saúde. O que eu mais estranho na Holanda é o idioma porque, apesar do inglês ser muito falado aqui, algumas coisas no supermercado estão em holandês. Então, se você quer saber a diferença de um produto para o outro, você não consegue. Essa é uma dificuldade. A outra é o clima. É frio o tempo inteiro.

A grande diferença positiva que sentimos é a segurança. É muito tranquilo. Sinto que posso sair e voltar para casa a qualquer momento. Isso é um diferencial do Brasil. A gente até estranha quando chega aqui, mas depois se acostuma com isso. Tem uma rede muito grande aqui de brasileiros, eles se ajudam. Com relação aos holandeses, eu me sinto absolutamente acolhido e nunca tive nenhum tipo de problema no país. Os holandeses são simpáticos, mas reservados.

Eu e minha esposa (Mariana Cremonini) não sabemos ainda se queremos voltar para o Brasil. Ainda estamos entrando no nosso segundo ano no país. Queremos pensar mais um pouco, ver a experiência, planejar se vamos ter filhos, etc. Ela é jornalista. Chegou aqui sem uma proposta de trabalho, mas já está indo para o seu segundo trabalho. Saber a língua local facilita, mas ela está se dando bem.

Thalita se mudou para os Estados Unidos com a família há oito meses

Thalita se mudou para os Estados Unidos com a família há oito meses

Thalita Melo

Idade: 34 anos

Profissão: Empresária e micropigmentadora

Cidade/País: Parkland/Estados Unidos

Motivo: Trabalho e estudo

Tempo: 8 meses

Estados UnidosAmérica do Norte

Área: 9.371.175 km²

População: 325.719.178

hab.IDH: 0,924 (13º do mundo)

Eu sou natural de Caicó, mas moro em Natal desde os 15 anos. Sempre quis fazer intercâmbio na adolescência, via meus amigos fazendo, mas nunca tive condições financeiras. Ficou aquele desejo. Depois, fui mãe aos 25 anos, comecei a trabalhar aqui em Natal, a ter uma empresa. Com isso, senti que morar fora estava muito distante da minha realidade. Até que viajei ao Estados Unidos pela primeira vez em 2015. Fui de férias, mas durante a viagem visitei alguns salões semelhantes ao meu (de micropigmentação), peguei contatos e vi que tinha espaço para mim. Então, comecei a me planejar. Um ano depois, fiz outra viagem parar tirar a licença necessária para exercer a micropigmentação aqui. Você tem que fazer um curso e recebe um certificado de apto para exercer a profissão, que aqui se encaixa como a de tatuador.

Comecei a fazer o curso necessário para conseguir a licença na segunda viagem ao Estados Unidos. Então, fui convidada para dar aulas e algumas palestras de micropigmentação nessa escola. Depois disso, passei a visitar o Estados Unidos a cada três meses, com a escola arcando com todos os custos.

Mas, mesmo nessa época, eu ainda via morar fora como algo distante por conta da empresa em Natal. Os sócios são eu e meu marido. Sentia que ela não tinha como se manter se eu fosse embora, mas fiz um curso de gestão, passei a entender mais e treinei algumas pessoas. Aí decidi vir para o Estados Unidos, com o marido e dois filhos, sabendo pouco de inglês. Foi um recomeço de tudo. 

Hoje, eu estou fazendo um mestrado na área de negócios internacionais para entender como eu posso trazer minha empresa para cá. Meu marido está estudando inglês. Ele não sabia de nada. E esse é um fator que pesa muito na adaptação. Minha filha, a Júlia, de 7 anos, e meu filho, o Pietro, de 5 anos, estão mais adaptados, já aprenderam inglês, tem colegas aqui. A Júlia diz que o lugar dela é no Estados Unidos.

O que mais sinto falta do Brasil são os vínculos, de familiares e amigos. A saudade da família é grande. Não senti muito o clima, nem a culinária, já que aqui vende praticamente tudo que tem aí nos supermercados brasileiros. Por outro lado, aqui a sensação de segurança é enorme. Essa é uma vantagem em relação ao Brasil. Já a saúde, para nós que não somos cidadãos americanos, é muito cara. O que eu tenho é um seguro que fiz antes de sair do Brasil, mas que só vale para casos de urgência.

Quando eu vim, eu imaginava que as coisas seriam mais fáceis. Mas foi um recomeço. Recomeço de tudo. Cheguei em um lugar que não conhecia direito a língua, não tinha pessoas conhecidas, que funciona diferente. Tudo isso pesa muito. Esses oito meses está sendo uma experiência e eu quero chegar a pelo menos três anos aqui. A maior realização, até agora, é a pessoal. Eu aprendi o que é ser mãe. Digo isso porque no Brasil eu achava que era uma mãe presente na vida dos meus filhos, mas quando eu cheguei aqui, sem nenhum outro vinculo, sem babá e familiares, eu soube o que é estar presente. Esse é um ganho muito grande.

Rebecca destaca a segurança como ponto positivo de Xangai

Rebecca destaca a segurança como ponto positivo de Xangai

Rebecca Câmara

Idade: 23 anos

Profissão: Modelo

Cidade/País: Xangai/China

Motivo: Trabalho

Tempo: 3 anos

ChinaÁsia

Área: 9.596.961 km²

População: 1.379.302.771 hab.IDH:  0,752 (86º do mundo)

Quando surgiu a oportunidade de trabalhar fora, eu não pensei duas vezes em aceitar porque seria a realização de um sonho que antes era praticamente impossível. Minha família não tinha condições de pagar uma viagem internacional a turismo/intercâmbio. Outras motivações era a vontade que eu sempre tive de saber como era viver em uma cultura diferente e o fato de eu me sentir dentro de uma ‘bolha’ no Brasil. No início, a motivação principal era mais pela experiência mesmo, até porque eu tinha vindo com o objetivo de morar apenas três meses. Hoje em dia a motivação de continuar é porque eu tenho uma vida mais confortável.

A segurança é a principal vantagem. Nunca ouvi falar de assalto aqui. Quando eu morava no Vietnã [Rebecca morou no Vietnã, China e Coreia do Sul nos três anos que está no oriente], ouvia relatos de pequenos furtos. Também ouço isso de alguns amigos que moram na Ásia do Sul, mas nada comparado ao Brasil. Mas aqui [Xangai] e na Coreia do Sul é extremamente seguro andar na rua usando qualquer coisa de valor ou qualquer roupa. Ninguém vai mexer com você.

Outra vantagem é que tudo aqui é muito prático, feito por celular. Todo mundo tem carteira online e todos os pagamentos são feitos por aplicativos e maioria pago por código QR. Falando em praticidade, aqui tem de tudo para alugar. Você paga pelo celular e custa poucos centavos. Exemplo, existem dezenas de bicicletas livres na cidade para você pegar e deixar onde quiser. Basta scannear o código QR e pagar pelo tempo de uso. Além de bicicleta, tem guarda-chuva, bateria portátil para celular.

Eu me sinto adaptada aqui. É muito fácil se acostumar pela praticidade das coisas, mas uma desvantagem é que aqui você sempre vai ser um estrangeiro. Ou seja, em alguns momentos, por mais acostumada que eu esteja, ainda me sinto deslocada. Não existe discriminação exatamente, mas me sinto bem desconfortável quando eles ficam encarando e falando “estrangeiro” uns para os outros. Apesar de já ter meio que me acostumado, às vezes é bem chato, mas normalmente eles tratam estrangeiros educadamente.

Não penso em voltar para o Brasil. Acho que morar aqui é muito bom. Aqui a gente amadurece muito mais rápido e aprende sobre outras culturas, conhece gente do mundo inteiro e pelo menos eu já estou acostumada a morar longe de casa e da família. Tem que segurar as pontas porque sempre vão haver momentos muito difíceis que você vai ter que se ver sozinho e longe, mas não troco minha vida aqui por nada. Acho que hoje sou uma pessoa bem mais inteligente do que eu jamais seria do que se tivesse ficado só em Natal.