Remixes feitos com IA e fragilização da legitimidade artística

Foto: Reprodução

Enquanto eu rodopiava esse mundo imersivo de informações vaporizadas e tendências passageiras, me deparei com a seguinte notícia: “Spotify anuncia a permissão de remix de músicas feitas por IA”. Logo me arrematou pensamentos sensatos e já anteriormente discutidos pelos estudiosos da comunicação sobre a regulamentação dessas novas entidades, e como isso poderia de algum modo afetar a vida cotidiana. 

O Spotify se associou à Universal Music Group para permitir que os usuários criem remixes e versões de músicas de artistas da gravadora por meio de inteligência artificial, função essa que só será autorizada por meio de uma tarifa extra na assinatura da plataforma. 

“Pela primeira vez, os fãs poderão criar legalmente versões e remixes a partir dos catálogos dos artistas e compositores participantes, de modo que tanto o artista original quanto o compositor compartilhem o valor criado”, disse Charlie Hellman, chefe de música do Spotify, durante o dia do investidor da companhia. 

A nova função se aplicará apenas a artistas que tenham dado seu consentimento, tanto o intérprete original quanto o compositor receberão parte da receita gerada. É legítimo nos questionarmos como será a divisão desses royalties, tendo em vista o posicionamento controverso da empresa sobre a receita distribuída para os artistas cadastrados. Me provoca eticamente no quesito, música, corpo, mente pensante, até nos próprios artistas de remixs. De que modo será executado esse novo modelo?, no que isso pode impactar produções menores e de cunho independente?. 

Gravação carrega um processo particular, mesmo quando é uma regravação, substituir esse mecanismo que é puramente nosso, me leva para um lugar de terceirização não apenas do trabalho em si, mas do pensamento. O senso crítico e emocional, a ética, a estética, está a mercê de uma nova tecnologia que deveria ter como proposta outras atribuições. Até os próprios influenciadores e artistas de remixes, que pensam milimetricamente em cada detalhe na hora de reproduzir uma faixa já existente, que lugares eles ocuparão nessa vasta proposta de possibilidades, são tantas nuances. Não acho que isso venha para facilitar ou dar poder de criação aos usuários e fãs, mas mostra a precarização da atividade humana no quesito sentimento, pesquisa, sensibilidade e estudo. E a falsa sensação de produção mercadológica e incidência no mercado.

Até agora, o Spotify havia proibido músicas geradas com inteligência artificial a partir da obra de um artista sem sua autorização expressa, embora permita o envio de músicas criadas com IA de forma geral. O acordo com a Sony coloca o Spotify na reta de distribuidoras de músicas geradoras de conteúdos com inteligência artificial, obtendo concorrência direta com aplicativos  consolidados no mercado dessa mesma categoria, a Suno e a Udio. 

O diretor-executivo da Universal Music,  Lucian Grainge citou nesta coletiva, classificando a iniciativa como “firmemente centrada no artista, baseada em uma IA responsável“, e afirmou que ela “impulsionará o crescimento de todo o ecossistema“.

Durante o evento, o Spotify também anunciou que dará aos assinantes pagos acesso antecipado para compra de ingressos para os shows de seus artistas mais ouvidos. O novo serviço, chamado “Reserved”, será lançado este ano nos Estados Unidos antes de se expandir para outros mercados. Os assinantes serão selecionados com base nos dados de escuta, incluindo a frequência com que reproduzem determinado artista em streaming, a variedade de faixas que ouvem de seu catálogo e se salvaram músicas em sua biblioteca. Eles terão cerca de 24 horas para comprar até dois ingressos por meio de uma plataforma de vendas parceira.

O aumento das taxas de shows no Brasil de artistas, principalmente internacionais, dobraram de valor nos últimos anos. Esse fenômeno ocorre não apenas pela demanda, fluxo de mercado, e inflação, mas também a falta de rentabilidade dos streams.  Shows viraram a principal fonte de renda dos artistas na atualidade. As empresas de movimentação fonográfica sabem dessa ocorrência . E agora, o Spotify vai propor essa “solução”, baseada em uma lacuna gerada pelas próprias empresas que abastecem o mercado na contemporaneidade.

Fonte: G1pop & arte