Gabriel Ganley, influenciador do mundo Wellness, teve morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica. Gabriel foi encontrado morto no apartamento onde morava na Zona Leste de São Paulo. O influenciador expressava explicitamente nas redes sociais o seu uso de hormônios para o desenvolvimento hipertrófíco e apareceu em diversos conteúdos reforçando comportamentos que indicava o abuso de substâncias.
O mundo da internet proporcionou um lugar sem regimentos severos seguidos consequências, aprendemos a viver nessa “terra sem lei”, e como o digital virou uma extensão do que há no físico, o mundo real intensificou os fenômenos abarcados pelo digital por consequência.
As corridas, os shots matinais, diversas vitaminas, academia o uso generalizado de remédios de diabetes para perda de peso, a exigência do corpo perfeito e disciplina, se teletransportaram para o cotidiano global como uma febre. O que veio para interromper um ciclo vicioso e prejudicial de abusos de substâncias e negligências nas gerações anteriores, ganhou uma nova forma, mas dessa vez, mascarada de “auto cuidado”.
Números da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que o uso de testosterona cresceu 670% nos últimos cinco anos, evidenciando a expansão desse mercado no país. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a estimativa é que 3,3% da população no país está inserida nessa realidade. Sendo 6,4% homens e 1,6% mulheres – seja usuária ocasional ou frequente -, até 18,4% entre esportistas recreacionais, 13,4% entre atletas, 12,4% entre a população carcerária e 2,3% entre estudantes do ensino médio.
São dados alarmantes sobre a saúde, não só física. Esses dados revelam um padrão de consumo estético instituído de maneira dissimulada nas redes, levando a decadência física e mental.
Me pergunto em que momento a deliberação desse mercado incidiu de forma tão violenta na nossa sociedade a ponto de causar desestabilização física e emocional na população.
Como deixamos isso acontecer? Quando iremos nos responsabilizar e trazer não de forma individual o problema, mas como um caso severo de saúde pública.
Corpo perfeito e afirmação da masculinidade
A política do “shape perfeito” inundou a internet nos últimos anos, com maior incidência nos homens. Diversos perfis de influencers fitness, estimulavam a academia como forma de “curar” uma determinada lacuna emocional.
Páginas de memes engajando cada vez mais o comportamento do “homem triste, deve puxar ferro”, um estilo de vida que substituiu de forma inconsciente um dos principais métodos no auxílio para uma boa saúde mental.
Termos como “frango”, para determinar um padrão de homens que não atingiram esse ideal, ficou cada vez mais comum em rodas de amizades masculinas, como xingamento, o estigma se popularizou e levou a uma masculinidade pautada nessa exigência estética.
Mais uma vez as afirmações masculinas inseridas na sociedade de forma sublime, mas muito bem pensadas para reforçar uma conduta adoecedora. Dados de pesquisas nacionais e internacionais indicam que homens costumam procurar serviços de saúde mental com menor frequência quando comparados às mulheres.
Segundo o Ministério da Saúde (DataSUS), o Brasil registrou mais de 107 mil mortes por suicídio entre 2015 e 2022, quase 80% das vítimas eram homens. Dados do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) revelaram que o consumo de álcool e drogas ilícitas no país é mais frequente do que indicavam pesquisas anteriores, especialmente entre homens.
Essas pesquisas comprovam a falta de conscientização e movimentação social para o cuidado com a saúde mental masculina, que muitas vezes resulta em um acontecimento fatal. Os padrões tóxicos do “o que é ser homem”, estão cada vez mais fragilizados culminando em casos de negligência.