A maneira que o mundo se apresenta hoje representa uma mudança global de consumo e comportamento. Após a pandemia da Covid-19, observou-se um movimento que “resgata” hábitos e produtos de gerações anteriores. Vinis, câmeras analógicas e revistas ressurgiram como um símbolo de nostalgia, passaram a guiar tendências de consumo e até o que representa de mais “cool” para a geração atual.
Os termos de performance mudaram, agora não simbolizam mais um fazer artístico, e sim um conglomerado de exigências estéticas e práticas para determinar uma classe, um status social e conexões humanas partidas de núcleos digitais.
O vinil ultrapassou a marca de US$1 bilhão em receita, pela primeira vez desde 1983, segundo o relatório anual da Recording Industry Association of America, divulgado em maio. Ao todo, foram 46,8 milhões de unidades vendidas, um crescimento de 9,3% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente por fãs que buscam experiências musicais únicas.
Além da proposta experimental, o vinil se tornou artigo de luxo. Se antes era utilizado unicamente para a reprodução musical, agora é visto também como item de colecionador, com diferentes versões e discos personalizados. De acordo com a Discogs, o maior banco de dados online de música e mercado de compra/venda de discos de vinil do mundo, o valor médio do vinil cresceu 24% nos últimos cinco anos, podendo variar entre R$200 e R$10.000, no caso de peças raras.
A Genz virou uma vitrine do retrô, enaltecendo padrões analógicos de comportamento, estética e vestimenta. O Adidas Samba voltou, as camisas de time retrô começaram a circular, calças baggy, fones com fio, câmeras cybershot e a explosão de artigos do início dos anos 2000.
Com tanto resgate ao passado, só nos resta pensar no que estamos dispostos a construir. Acho preguiçoso falar que a geração Z não tem nada a oferecer, que é uma geração acomodada e parte de práticas reprodutivas sem nexo. Mas, quando rolamos o feed e nos deparamos com os mesmos conteúdos resgatados por anteriores ou uma tentativa visual escancarada do que já existia em outro “zeitgeist”, o questionamento do marco que deixaremos impresso na história se torna uma dicotomia.
O desespero por experiências e resgate se deve muito ao fato da exposição incontrolada de estímulos tecnológicos e visuais. Em uma geração onde o acúmulo e a oferta são o que ditam as regras, a procura por algo concreto tornou-se refúgio.
Segundo o psicólogo especialista em nostalgia Clay Routledge, vice-presidente de pesquisa e diretor do Archbridge Institute, o fenômeno chamado de “nostalgia histórica” está em alta entre jovens que não viveram a adolescência nos anos 90. De acordo com o Dr. Routledge, a nostalgia histórica não é apenas uma “lembrança idealizada”.
O estudo “Nostalgia Histórica na América Moderna” revelou que 63% dos entrevistados recorrem a memórias de épocas antecedentes como estratégia emocional para lidar com o estresse e a ansiedade.
É muito simples abrir uma plataforma digital e se deparar com milhares de possibilidades de escuta: artistas ranqueados em top 10 mais ouvidos, playlists prontas, músicas avulsas sugeridas, botão de “ordem aleatória em uma discografia”.
Parar um instante e não se ver em meio às possibilidades soa terapêutico. Escutar um disco do início ao fim, usar mais de um dedo para escolher o estilo desejado, sem uma gama de possibilidades e a probabilidade gritante de outro algo mais interessante cruzar esse caminho, tornou-se a verdadeira experiência que a geração Z busca.
Parte do processo é dar conta de si, do tempo, do fazer. A internet nos aproximou e facilitou incontáveis coisas, mas é nítido que nos roubou a concepção real de escolha e apreciação. Grande número de viabilidades e alcances gera perdas incontáveis, e a geração se torna perdida para o novo.
Com tantas janelas abertas, escolher uma para adentrar com propriedade é um desafio. Esse resgate ao passado busca, sobretudo, a experiência de um processo ininterrupto por estímulos e vislumbra como existia o mundo antes de aparatos tecnológicos inevitáveis.
Por isso, surge a reprodução de que essa é uma geração desenvolvida no “comodismo” e com percepções mutáveis de valores. No mundo atual, os números mudam, as pessoas também, o tempo não existe nessa geração, o próximo sempre abraça o antes e o futuro é a perspectiva de uma nova chegada de algo mais presunçoso.
O resgate ao passado surge como refúgio de um mundo alimentado pelo excesso. A tendência se molda sob este prisma, tornando o processo terapêutico e anestesiante para mentes cansadas, em um aneurisma de reprodução que molda a tendência e superaquece o mercado, propondo o processo inverso do que foi posto inicialmente.
No fim, a Genz pode sim se sentir pertencente e mais acolhida com o processo que a escuta de um disco sugere. Mas, certamente, a foto da vitrola com uma luz amarela reforça, sim, um posicionamento de classe e, como a própria geração dita, “performance”, tornando o refúgio mais um lugar de reprodução frenética.