Cruzamentos, escanteios e disputas pelo alto seguem como jogadas tradicionais do futebol. Na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, 25 dos 215 gols foram marcados de cabeça, segundo dados da FIFA. Fora das quatro linhas, no entanto, a medicina esportiva investiga se a repetição de cabeceios pode estar relacionada a alterações no cérebro, mesmo sem registro de concussões. As apurações são de Marília Marasciulo da Folha de S.Paulo.
Parte dessas pesquisas utiliza exames de imagem para analisar principalmente a substância branca, responsável pela comunicação entre diferentes áreas do cérebro, e a substância cinzenta, ligada ao processamento de informações. Alterações nessas estruturas podem indicar mudanças na integridade cerebral, mas não significam necessariamente que o atleta desenvolverá sintomas ou doenças neurológicas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na revista Neuroradiology analisou 13 estudos de ressonância magnética em jogadores de futebol. O levantamento apontou associação entre cabeceios e mudanças moderadas a grandes em marcadores da substância branca, embora os achados estruturais e metabólicos tenham sido menos consistentes e com relevância clínica ainda incerta.
Em outra pesquisa apresentada na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte, em 2024, cientistas da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, avaliaram exames de 352 jogadores amadores — homens e mulheres de 18 a 53 anos — e compararam com 77 atletas de esportes sem contato, como corredores.
Entre os que relataram maior frequência de cabeceios, foram observadas alterações na substância branca, especialmente em regiões próximas aos sulcos cerebrais e no lobo frontal. Essas mudanças também foram associadas a pior desempenho em testes de aprendizagem verbal.
O mesmo grupo publicou em 2025 um estudo na revista JAMA Network Open, aprofundando a análise da mesma amostra. Os pesquisadores identificaram a região orbitofrontal como área em que alterações na interface entre substância cinzenta e branca poderiam explicar a relação entre cabeceios repetidos e pior desempenho cognitivo. Ainda assim, os autores reforçam que os resultados não permitem afirmar causalidade entre cabeceio e doenças neurodegenerativas.