Maioria dos grandes partidos não adota filtro contra filiação de integrantes do crime organizado, aponta levantamento

O relatório revela que o aumento dos casos de violência em 2024 é 130% superior aos das eleições de 2020. Foto; Agência Brasil
Apenas o MDB aprovou uma regra específica para barrar a filiação e a candidatura de pessoas ligadas a organizações criminosas. Foto: Agência Brasil

Apesar dos alertas de órgãos de segurança sobre o avanço do crime organizado na política brasileira, a maioria dos principais partidos do país não possui mecanismos específicos para impedir a filiação de integrantes de facções criminosas antes do registro de candidaturas para as eleições de 2026.

Levantamento realizado pela Folha, e divulgado em reportagem da Folha de S.Paulo, com base nos estatutos e normas internas dos oito partidos com maior representação na Câmara dos Deputados — PL, PT, União Brasil, PSD, PP, Republicanos, MDB e Podemos — mostra que apenas o MDB aprovou uma regra específica para barrar a filiação e a candidatura de pessoas ligadas a organizações criminosas.

A norma, publicada em março, proíbe o ingresso de indivíduos vinculados a facções, milícias, grupos paramilitares ou organizações semelhantes. Além disso, determina a verificação de antecedentes, origem de recursos e possíveis vínculos dos filiados e pré-candidatos.

Regras variam entre os partidos

Nos demais partidos, as regras se concentram em punições posteriores. O PT e o Republicanos, por exemplo, preveem expulsão após condenação criminal definitiva. Já PP e Podemos incluem sanções relacionadas a casos de improbidade administrativa.

Por outro lado, PSD e União Brasil seguem apenas as exigências previstas na legislação eleitoral. O PL prevê a possibilidade de impugnação da filiação por conduta considerada incompatível com os princípios da legenda, sem estabelecer critérios específicos.

Alertas sobre influência criminosa

Em relatório divulgado no fim de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência apontou que a aproximação entre grupos criminosos e agentes políticos representa um dos principais riscos institucionais para o processo eleitoral brasileiro.

Segundo o documento, a crescente influência de facções e milícias demonstra capacidade de interferência na política e nas eleições, ampliando preocupações sobre o financiamento de campanhas e a ocupação de cargos públicos.

Casos investigados

O debate ganhou força após investigações que apontaram possíveis vínculos entre políticos e organizações criminosas em diferentes estados.

No Rio de Janeiro, uma apuração da Polícia Federal citou o ex-deputado estadual TH Joias, suspeito de ligação com o Comando Vermelho. Segundo o levantamento, ele recebeu recursos partidários para a campanha de 2022 enquanto ainda recorria de uma condenação por tráfico de drogas e associação para o tráfico.

Em São Paulo, operações conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo e pelo Ministério Público de São Paulo investigaram políticos suspeitos de ligação com o Primeiro Comando da Capital, em casos relacionados a fraudes em licitações, corrupção, lavagem de dinheiro e peculato.

Especialistas ouvidos pela reportagem da Folha destacam que a preocupação aumenta em cargos legislativos devido ao acesso de parlamentares a recursos públicos, como emendas parlamentares, cuja fiscalização e rastreabilidade ainda são alvo de questionamentos judiciais e institucionais.