A pregação da pastora Helena Raquel durante um dos maiores congressos evangélicos do País provocou ampla repercussão nas redes sociais ao tratar de forma direta de temas como violência doméstica, abuso sexual e pedofilia em ambientes religiosos. A mensagem foi apresentada no 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora, em Camboriú (SC), evento que reúne milhares de fiéis e alcança milhões de pessoas por transmissões on-line.
Em sua fala, a líder religiosa criticou o que classificou como silêncio e omissão dentro de igrejas diante de crimes cometidos por líderes e membros. “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador. Ou é pastor, ou é abusador”, afirmou.
Um dos trechos da pregação, voltado especialmente a mulheres em relacionamentos abusivos, viralizou e ultrapassou 11 milhões de visualizações no Instagram até terça-feira (5). No recorte, Helena orienta vítimas a priorizarem a própria segurança: “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você. Você precisa ter coragem para sair, denunciar e buscar um lugar seguro. E não acredite em pedidos de desculpa, porque quem agride mata.”
Ao longo do sermão, a pastora também criticou o que chamou de “corporativismo religioso” e defendeu que a fé deve estar associada à responsabilidade ética e social. Ela citou ainda casos de pedofilia envolvendo a Igreja Católica como exemplo de crimes que não podem ser ignorados.
A repercussão extrapolou o meio evangélico e levou o conteúdo a ser compartilhado por influenciadores e figuras públicas. Em entrevista ao g1, Helena Raquel afirmou que a mensagem não foi motivada por um caso específico, mas por convicção pessoal. “Foi um direcionamento de Deus ao meu coração através da oração. A proteção à criança e à mulher é um tema de grande importância cristã e precisa ser abordado”, disse.
A pastora afirmou ter recebido a reação com surpresa e senso de responsabilidade. Segundo ela, as críticas foram pontuais diante do apoio recebido. “A violência contra mulheres e crianças não é uma questão partidária ou apenas religiosa, é humanitária e urgente”, afirmou.
Ao comentar a frase que ganhou maior alcance, Helena explicou que buscou separar autoridade espiritual de conduta criminosa. “Honrar uma autoridade é bíblico, mas criminosos não podem ocupar esse lugar. Não é necessário tratar como ungido quem deliberadamente se tornou um criminoso”, disse.
Durante a entrevista, ela também relatou ter vivenciado de perto situações de violência, incluindo um caso em que um homem se infiltrou em uma igreja, aproximou-se do ministério infantil e sequestrou uma criança, posteriormente assassinada. “Aquilo me chocou profundamente. Entendi que o mal pode se infiltrar mesmo em ambientes de fé”, afirmou.
Com mais de 30 anos de ministério, Helena Raquel lidera a Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADPIV), no Rio de Janeiro. Ela reúne cerca de 1,6 milhão de seguidores no Instagram e 580 mil inscritos no YouTube, além de ser autora de 13 livros e idealizadora do projeto Pastoras do Brasil, voltado ao incentivo da liderança feminina.
O vídeo completo da pregação, com cerca de 1h20 de duração, ultrapassou 1 milhão de visualizações no YouTube poucos dias após a publicação, acumulando milhares de comentários — muitos deles relatos de mulheres que afirmam ter enfrentado situações de violência e falta de acolhimento em ambientes religiosos.
Na mensagem, baseada no relato bíblico de Juízes 19, a pastora fez um paralelo entre a narrativa e a realidade contemporânea, defendendo maior rigor na proteção de fiéis e responsabilização diante de abusos. Ao final, deixou um apelo direto às vítimas: “Ninguém deve se calar diante da violência. Denuncie, busque um ambiente seguro e não se sinta rejeitado por Deus.”
Com informações do g1