“Os dados são a voz da realidade”: Karine Symonir fala sobre o futuro da pesquisa no RN

Foto: Divulgação

Ainda na infância, Karine Symonir de Brito Pessoa pegou um panfleto que dizia “Estatística, a profissão do futuro”. Ali, como ela mesma resume, se “perdeu” e se “entregou” à paixão pelos dados. Mais de duas décadas depois, a potiguar de 36 anos é graduada em Estatística e Matemática, especialista em Gestão Pública, MBA em Gestão Judiciária pela FGV, mestre em Demografia, doutora em Educação e cofundadora da Metadata Soluções Inteligentes.

Tem no currículo passagens decisivas pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, onde ajudou o tribunal a conquistar o 1º lugar do Brasil em Maturidade Estratégica e o Selo Diamante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), como consultora contratada junto ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).

Professora de cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos nas áreas de pesquisa de mercado, ciência de dados e métodos quantitativos, em 2026 publicou na Revista OWL Journal o artigo “O Sexto Sentido dos Dados e a Expansão da Percepção Humana na Era da Informação: Novas Formas de Perceber o Mundo”, no qual propõe a tese de que os dados, hoje, constituem uma modalidade perceptiva emergente, um sexto sentido.

Agora, soma a essa trajetória uma nova frente: a parceria com o Grupo Dial Natal, que reúne o Portal 98, a 98FM Natal e a Jovem Pan Natal. A iniciativa marca a chegada de uma análise técnica e qualificada de opinião pública a um ecossistema multiplataforma de comunicação no Rio Grande do Norte, e ganha contornos ainda mais estratégicos com a estreia do MetadataCast, podcast que promete aprofundar a leitura dos números que movem a sociedade.

Em entrevista, Karine fala sobre o papel da pesquisa no debate público, os desafios da desinformação, a responsabilidade de quem divulga dados e o que o eleitor brasileiro tem dito, ou escondido, neste novo tempo.

Trajetória: do panfleto da infância à gestão estratégica de instituições

Karine se descreve como uma profissional multifacetada, movida pela convicção de que os dados são o principal motor de transformação do século XXI. A formação multidisciplinar: Estatística, Matemática, Demografia, Educação, Inteligência Artificial, Machine learning e Gestão Judiciária, abriu, segundo ela, os olhos para algo que vai além dos números.

“Os dados não são apenas números. Eles são a essência das histórias de sucesso e fracasso, e podem ser a chave para desvendar vulnerabilidades e otimizar resultados.”

Sua trajetória profissional é uma fusão de serviço público, academia, gestão e empreendedorismo. Começou como estagiária da Secretaria de Tributação do estado aos 14 anos, foi bolsista de pesquisa durante a graduação, estatística na COMPERVE/UFRN e no Núcleo de Pesquisa em Alimentos e Medicamentos (NUPLAM/UFRN), professora universitária do UNI-RN e do Instituto Federal, onde lecionou Estatística aplicada para cursos como Administração, Arquitetura, Ciências Contábeis, Engenharia, Enfermagem, Fisioterapia, Serviço Social, Tecnologia da Informação, Redes de Computadores e Psicologia.

Karine construiu, na prática, o que hoje entrega a clientes públicos e privados: gestão orientada por evidências. Em paralelo, ao lado do sócio Felipe Menezes, fundou a Metadata, consultoria que se propõe a ser, nas palavras dela, “uma ponte entre o caos dos números e a clareza estratégica”.

A empresa também abriu caminho para outras iniciativas, como a MetaVest, no setor de fardamentos, e a Metafarma, farmácia de bairro em Parnamirim, experiências que, conta, serviram como laboratório prático das próprias orientações de consultoria.

Em 2025, lançou ainda pela Emais Editora o livro “O Uso dos Dados na Gestão das Políticas Educacionais: A Compreensão das Vulnerabilidades Multidimensionais e do (In)sucesso na Educação Básica”, fruto de sua tese de doutorado.

A virada de chave veio no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. Sua passagem pelo TJRN começou em 2013, assumindo a área de Gestão de Processos e Dados Estatísticos. Entre 2017 e 2019, foi Secretária de Gestão Estratégica do TJRN (SGE/TJRN). Foi sob sua coordenação que o tribunal lançou o GPS-JUS, ferramenta de Business Intelligence (BI) que passou a oferecer a juízes e desembargadores, em tempo real, informações antes disponíveis apenas mediante solicitação.

Em seguida, atuou como Coordenadora Administrativa sênior da Corregedoria Geral de Justiça e por mais quatro anos foi Coordenadora de Gestão de Processos de Trabalho vinculada à Presidência do TJRN.

“No Judiciário, eu não apenas gerenciei projetos de alta complexidade. Usei os dados para planejar, otimizar e medir o impacto real do que fazíamos. Foi ali que entendi, definitivamente, o poder da gestão orientada por dados.”

Para Karine, esses resultados não são troféus de prateleira; são prova de que método e ciência de dados podem transformar instituições públicas, mesmo as historicamente menos dinâmicas. Depois do TJRN, vieram vários capítulos e um deles foi como consultora contratada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em projeto junto a Central de Compras do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) no qual desenvolveu uma metodologia de cálculo de custos e indicadores de desempenho para contratações públicas no Brasil.

Ali, Karine teve a oportunidade de aplicar sua expertise em gestão estratégica e análise de dados na ponta da administração pública federal, contribuindo com iniciativas voltadas à transformação da gestão pública, à governança de dados e à eficiência dos serviços prestados ao cidadão.

“Trabalhar com a Central de Compras do MGI ampliou a régua. É outra escala, outro impacto, outras exigências. Você sai do estado, atua no país e percebe que os mesmos princípios, método, dado, transparência, foco em resultado, valem em qualquer nível de governo.”

Essa convivência com a Agenda 2030 da ONU, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (especialmente o ODS 16, que trata de instituições eficazes, responsáveis e inclusivas) e com a transformação digital do Estado deu à profissional uma visão sistêmica que hoje ela traz para o setor privado, para a academia e, agora, para o jornalismo.

A pesquisa de opinião que vamos fazer no Grupo Dial bebe de tudo isso”, resume.

O peso dos números numa sociedade movida a informação

Para Karine, vivemos a era em que a informação é o recurso mais valioso e, ao mesmo tempo, o mais mal interpretado. Daí a importância de pesquisas sérias, com método. Ela faz questão de marcar a diferença entre o que é levantamento técnico e o que é apenas “número solto”.

“Pesquisa séria tem desenho amostral, hipótese clara, instrumento validado, controle de viés e leitura crítica do resultado. Levantamento sem rigor é opinião disfarçada de evidência.”

É essa fronteira, defende, que separa um instrumento de inteligência pública de uma ferramenta de desinformação. E é justamente onde mora um dos maiores desafios de trabalhar com opinião pública no Brasil: a polarização, a desconfiança nas instituições, o eleitor que esconde sua intenção e o ambiente digital que amplifica narrativas antes que elas possam ser verificadas.

Sobre interpretar pesquisas sem análise técnica, ela é direta: o risco é confundir fotografia com diagnóstico e, pior, transformar um recorte de momento em sentença sobre o futuro.

Os dados são honestos. Quem mente é a leitura apressada deles”, resume.

Jornalismo, dados e o combate à desinformação

A relação entre jornalismo e dados, na avaliação dela, é uma das alianças mais potentes do nosso tempo. O jornalismo dá contexto, narrativa e responsabilidade pública; os dados dão lastro, comparabilidade e densidade. Juntos, formam o que ela chama de “tradução do real”.

“O dado bruto não convence ninguém sozinho. Ele precisa de quem conte a sua história com rigor. É aí que o jornalismo entra e é aí que a pesquisa séria se torna inseparável do bom jornalismo.”

Em tempos de excesso de informação, combater a desinformação passa, segundo Karine, por três pilares: educação estatística básica para a população, transparência metodológica de quem produz pesquisa e, do lado das redações, compromisso com a checagem antes da publicação.

Não dá mais para divulgar número sem explicar como ele foi obtido”, afirma.

A responsabilidade de um instituto que divulga dados que influenciam o debate político, completa, é enorme e deve ser tratada como serviço público, ainda que a operação seja privada.

Um case em curso: a pesquisa da Patrulha Maria da Penha

A discussão sobre rigor técnico não fica apenas no plano do discurso. Em 2025, a Metadata foi selecionada, por meio de processo licitatório, para conduzir uma pesquisa científica encomendada pela Patrulha Maria da Penha da Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMP/PMRN), no âmbito do Edital nº 90.050/2025-BPRED/PMRN/SESED.

O contrato, de doze meses, obtido por meio do pregão eletrônico, tem como objetivo produzir um diagnóstico aprofundado sobre a atuação da Patrulha e de toda a rede de proteção à mulher no estado, com um diferencial que Karine faz questão de destacar.

“O ponto mais inovador da pesquisa é ouvir diretamente as mulheres assistidas. Estudos anteriores não conseguiam acessar esse público, e é exatamente sobre a ótica delas que precisamos mapear o que está funcionando, o que está falhando e o que precisa mudar.”

A metodologia do projeto é mista: combina revisão bibliográfica, análise de dados históricos dos últimos cinco anos provenientes de múltiplas fontes oficiais, CIOSP, Polícia Civil, Justiça Estadual, Defensoria Pública, Saúde, Polícia Penal, centros de referência em assistência social e casas-abrigo, com pesquisa quantitativa (questionário georreferenciado, amostragem estratificada, 95% de confiança e margem de erro de 5%) e pesquisa qualitativa, por meio de entrevistas semiestruturadas e grupos focais com mulheres que já utilizaram, ou não, os serviços de proteção.

O estudo se organiza em quatro perspectivas analíticas: a da sociedade, a das próprias vítimas (com e sem registro de ocorrência), a do efetivo policial e administrativo da PMP e a da rede de apoio, que inclui Polícia Civil, Tribunal de Justiça, Defensoria, Procuradoria e Ministério Público. Recortes de raça, idade, classe social e orientação sexual integram a leitura.

Todo o trabalho é conduzido sob diretrizes éticas estritas, incluindo conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), consentimento informado e sigilo das participantes.

É um projeto que mostra, na prática, o que defendo no plano teórico. Dado bem coletado e bem interpretado pode salvar vidas. Não é metáfora“, diz Karine.

A parceria com o Grupo Dial Natal

A chegada ao Grupo Dial Natal, diz Karine, representa um casamento entre análise técnica e um ecossistema de comunicação consolidado, que já fala diariamente com milhares de potiguares por meio do Portal 98, da 98FM Natal e da Jovem Pan Natal.

“O que me chamou atenção no projeto editorial do grupo foi a coragem de tratar o leitor e o ouvinte como adultos. Isso combina demais com pesquisa de qualidade: gente que respeita o público quer também respeitar o dado.”

A integração entre instituto e jornalismo, na visão dela, eleva a qualidade da informação porque encurta o caminho entre o número e o entendimento. Em vez de o público receber apenas uma manchete com porcentagem, passa a ter acesso à metodologia, ao contexto e à interpretação responsável, em rádio, no portal e, agora, em podcast.

O diferencial de produzir pesquisas conectadas a um ecossistema multiplataforma como o Dial é exatamente esse alcance qualificado: o mesmo dado pode ser detalhado em texto no Portal 98, debatido ao vivo nas rádios e aprofundado no MetadataCast, sem perder consistência entre as plataformas. Para o público, a tradução disso é direta: mais clareza para entender o que os números do RN realmente estão dizendo, sobre política, comportamento, economia, segurança e serviços públicos.

O eleitor mudou e a leitura também precisa mudar

Perguntada se o eleitor está mais difícil de interpretar hoje, Karine responde sem rodeios: sim. O brasileiro de 2026 é mais desconfiado, mais volátil e, em muitos casos, mais silencioso. A informação chega por dezenas de canais simultâneos, e a decisão é tomada por camadas, emocional, identitária, econômica.

“O eleitor não está mais difícil de entender porque ficou irracional. Ele está mais difícil porque está mais complexo. Quem reduz isso a um único eixo erra a previsão e, pior, erra o diagnóstico.”

Entre as tendências que ela percebe no comportamento político do brasileiro estão o crescimento do peso de pautas locais e cotidianas, a desconfiança generalizada nas instituições tradicionais, a influência crescente das comunidades digitais sobre a formação de opinião e a oscilação rápida entre apoio e rejeição.

A tecnologia, completa, mudou para sempre a leitura da opinião pública: hoje é possível cruzar pesquisas tradicionais com escuta social, análise de sentimento, dados administrativos e modelos preditivos, ampliando, e exigindo, a maturidade analítica de quem interpreta.

MetadataCast: aprofundar antes de opinar

A expectativa para a estreia do MetadataCast, podcast da Metadata, é alta. A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: aprofundar a análise dos dados que já estão circulando, mostrar o que está por trás de cada gráfico, e oferecer ao ouvinte, ao espectador e ao leitor uma leitura que vá além do título.

“Quero que o MetadataCast seja o espaço onde o número respira. Onde a gente possa explicar, contextualizar e, principalmente, escutar quem está sendo retratado pelos dados.”

Esse aprofundamento, defende, amplia horizontes porque dá ao público as ferramentas para questionar, comparar e decidir. Em vez de consumir conclusões prontas, o ouvinte passa a entender o caminho, e isso, na avaliação dela, é o que verdadeiramente forma cidadania.

O que o Rio Grande do Norte pode esperar

Nos próximos meses, o Rio Grande do Norte deve ver chegar, com a assinatura da Metadata dentro do Grupo Dial Natal, uma agenda regular de pesquisas, análises e produtos editoriais baseados em dados, de cenários políticos a indicadores de qualidade de vida, passando por temas que afetam diretamente a rotina do potiguar. Tudo, garante Karine, ancorado em método e em uma linguagem que respeita a inteligência do público.

Aos 36 anos, com tese de doutorado em mineração de dados aplicada à educação, livro publicado, experiência na gestão estratégica do Judiciário potiguar, atuação como consultora do PNUD junto ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos e o olhar de empreendedora que já abriu, organizou e passou adiante negócios em setores distintos, Karine Symonir resume seu propósito em uma palavra que repete diversas vezes durante a conversa: transformação.

“Os dados são a voz da realidade. Meu papel, e agora também o do MetadataCast junto ao Grupo Dial, é garantir que essa voz seja ouvida com clareza, responsabilidade e respeito por quem está do outro lado.”