O Brasil não perdeu para a Noruega, perdeu para o próprio ciclo

Foto: Redes Sociais/Seleção Norueguesa

É natural procurar um culpado quando uma Copa do Mundo termina.

Bruno Guimarães perdeu um pênalti. Endrick desperdiçou uma chance clara. Neymar entrou e não conseguiu mudar o jogo. Ancelotti foi eliminado em sua primeira Copa pela Seleção.

Todos esses fatos são verdadeiros.

Só que nenhum deles explica a derrota.

O futebol costuma ser cruel com quem analisa apenas os 90 minutos. Há jogos que começam muito antes do apito inicial. O Brasil entrou em campo contra a Noruega carregando quatro anos de improviso, instabilidade e decisões equivocadas.

Não é razoável transformar Carlo Ancelotti no principal responsável. Ele assumiu uma Seleção em reconstrução, teve pouco tempo para trabalhar e precisou disputar Eliminatórias enquanto tentava formar um time. Nenhum treinador do mundo faz milagres em menos de vinte partidas.

Também não faz sentido colocar todo o peso sobre Neymar. Nem sobre Bruno Guimarães. Nem sobre Endrick.

A Seleção perdeu porque desperdiçou oportunidades. E Copa do Mundo não costuma perdoar isso.

Do outro lado estava Haaland.

Ele precisou de duas chances.

Fez dois gols.

Essa é a diferença entre quem vive um projeto consolidado e quem passou um ciclo inteiro tentando descobrir quem era.

A Noruega chegou às quartas de final porque construiu uma identidade. O Brasil chegou às oitavas ainda tentando entender quem é. Estamos no divã.

Os verdadeiros responsáveis não estavam apenas dentro das quatro linhas. Estavam nas decisões tomadas ao longo dos últimos quatro anos. Na troca constante de treinadores. Na instabilidade política da CBF. Nos escândalos que desviaram o foco do futebol. Na sensação permanente de que sempre haveria tempo para recomeçar.

Não havia.

No futebol de hoje, camisa pesa. História pesa. Talento pesa.

Mas planejamento pesa mais.

Talvez a maior ilusão do futebol brasileiro tenha sido acreditar que uma camisa pentacampeã ainda seria suficiente para compensar um ciclo tão desorganizado.

Não seria.

Se essa Seleção tivesse conquistado a Copa, seria uma exceção histórica, não consequência de um trabalho.

A eliminação para a Noruega não é um acidente.

É o resultado mais lógico de um ciclo que começou errado, permaneceu errado e terminou exatamente como se desenhava.

O Brasil não perdeu a Copa neste sábado.

Apenas descobriu, tarde demais, que ela já vinha escapando havia quatro anos.

Não menos importante, mas ainda tem o componente histórico, exatos 44 anos após o Sarriá, recebemos outra notícia de eliminação. Agora é recomeçar de olho em 2030.