O futebol não cabe em dois milissegundos

Análise do VAR no lance que daria o empate a Croácia. Foto: Reprodução

Há uma cena que resume a derrota da Croácia muito além do placar. Não é Cristiano Ronaldo comemorando a sobrevivência de sua última Copa do Mundo. Não é Luka Modrić deixando o gramado, talvez pela última vez, com a serenidade dos que sabem que a beleza também pode perder. A imagem que permanecerá é outra: um estádio inteiro esperando que uma máquina dissesse se houve ou não um toque imperceptível na bola.

E a máquina respondeu. E nos venceu.

Dois milissegundos bastaram para alterar um destino.

A FIFA explicou que o sensor instalado na bola detectou um contato que nem o árbitro, nem os jogadores, nem os comentaristas, nem as câmeras conseguiram identificar com clareza. O gol foi corretamente anulado segundo o regulamento. Juridicamente, tecnicamente e tecnologicamente, talvez não haja o que discutir.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja se a decisão estava correta.

Talvez seja outra: o que estamos perdendo quando tudo passa a depender daquilo que apenas uma máquina é capaz de enxergar?

Martin Heidegger chamava de “pensamento calculador” essa disposição moderna de transformar tudo em objeto de mensuração, cálculo e controle. Para o filósofo alemão, existe uma diferença fundamental entre conhecer algo e simplesmente medi-lo. O pensamento calculador organiza, quantifica, elimina ambiguidades. Já o pensamento meditativo aceita que algumas dimensões da existência só podem ser compreendidas porque permanecem abertas, imperfeitas, insondáveis.

O futebol sempre pertenceu a esse segundo mundo.

Ele nunca foi apenas uma sucessão de eventos verificáveis. Foi uma experiência humana.

O gol que parecia impedido, mas não estava. A bola que entrou e ninguém viu. A defesa impossível. O erro do juiz. A injustiça que gerou uma revanche histórica anos depois. O acaso que construiu mitologias.

Não se trata de defender equívocos de arbitragem como se fossem patrimônio cultural. Durante décadas, erros grotescos decidiram campeonatos, eliminaram seleções e destruíram carreiras. O VAR surgiu para corrigir aquilo que era objetivamente corrigível. E cumpriu, em muitos momentos, essa missão.

O problema começa quando a tecnologia deixa de ser instrumento para se transformar em critério absoluto da realidade.

Quando o futebol passa a reconhecer apenas aquilo que um sensor consegue medir.

Quando dois milissegundos passam a valer mais do que aquilo que todos os seres humanos presentes conseguiram experimentar.

É justamente nesse ponto que as palavras de Eduardo Galeano parecem atravessar o tempo. Em Futebol ao Sol e à Sombra, o escritor uruguaio jamais descreveu o futebol como uma ciência exata. Ao contrário, via nele um território da imaginação, do improviso, do inesperado. Um espaço onde a beleza nasce justamente porque ninguém controla completamente o que acontecerá.

Galeano escrevia que o futebol é a arte do imprevisto.

E o imprevisto não desaparece apenas quando os jogadores deixam de improvisar.

Ele desaparece quando tentamos eliminar qualquer margem de indeterminação da própria experiência de assistir ao jogo.

A cena entre Croácia e Portugal ilustra esse deslocamento. Durante alguns segundos, ninguém comemorava, ninguém lamentava, ninguém discutia futebol. Todos aguardavam uma sentença tecnológica. A emoção foi colocada em suspenso enquanto um algoritmo dizia qual sentimento era permitido sentir.

É difícil imaginar metáfora mais precisa para o nosso tempo.

Vivemos a era em que acreditamos que tudo pode ser convertido em dado. Que toda dúvida é apenas um problema de processamento. Que basta aumentar a resolução das câmeras, instalar mais sensores e ampliar o poder computacional para alcançarmos uma espécie de verdade definitiva.

Mas o futebol nunca prometeu oferecer verdades definitivas.

Prometeu oferecer histórias.

E histórias vivem justamente daquilo que escapa ao cálculo.

Talvez por isso a frase do técnico croata Zlatko Dalić tenha provocado tanta identificação ao afirmar que “o VAR mata a emoção”. Não porque a tecnologia esteja sempre errada, mas porque existe uma diferença entre corrigir um erro evidente e transformar o jogo numa sucessão de verificações microscópicas capazes de redefinir lances que só existem porque são vividos em velocidade humana.

O risco não é tecnológico.

É filosófico.

Quando passamos a acreditar que somente aquilo que pode ser medido merece existir, reduzimos o mundo àquilo que nossas máquinas conseguem captar.

Heidegger advertia exatamente sobre isso: o perigo da técnica nunca foi a técnica em si, mas a maneira como ela passa a moldar nossa relação com a realidade.

No futebol, essa realidade sempre foi feita de carne, suor, improviso, dúvida e emoção.

Não cabe inteiramente numa linha virtual.

Muito menos em dois milissegundos.

Porque há coisas que uma bola inteligente pode detectar.

Mas nenhuma tecnologia será capaz de medir o instante exato em que milhões de pessoas deixam de se apaixonar por um jogo que, aos poucos, insiste em trocar o mistério pela precisão.