O barulho de uma redação nunca é completamente compreensível. Mesmo quando os microfones são desligados, os cortes de vídeo terminam e as manchetes já foram publicadas, há sempre alguém observando o mundo como quem tenta decifrar um idioma secreto.
Trabalhando em uma das ilhas de edição do Grupo Dial Natal, enquanto a política fervia no noticiário diário e o ritmo frenético das manchetes disputa a atenção com as crises do país, Maria Liz parecia procurar outra coisa. Não apenas a notícia, mas o que existia atrás dela.
Era o detalhe.
A entrelinha.
O silêncio entre uma palavra e outra.
A geração que sente demais e explica de menos.
Foi assim que nasceu a observadora, antes de tudo, uma questionadora nata, dona de intermináveis “porquês”.
Maria, Maria, é um dom!
Antes mesmo de entender o peso de uma redação jornalística, Maria Liz já se acostumara a procurar ritmo nas palavras. Cresceu cercada por poesia e pela musicalidade quase inevitável dos cordéis.
Ainda bem jovem, descobriu que métrica também era uma forma de enxergar o mundo. As rimas vinham antes da música. A música veio depois, como consequência natural de alguém que já escutava as frases como quem escuta refrões.
Aos 16 anos, iniciou oficialmente a carreira artística como cantora e compositora. Mas havia algo que escapava das canções. Maria não queria apenas cantar sentimentos; queria entender de onde eles vinham.
Enquanto muitos jovens da própria geração consumiam cultura pop em velocidade industrial, ela parecia interessada em desmontá-la peça por peça, como alguém que abre um relógio para descobrir o mecanismo do tempo.
“Busco observar a vida e dela entender as motivações por trás. A arte induz esse processo, é mágico”, diz.
A frase poderia soar ensaiada se não fosse coerente com tudo o que veio antes dela. Porque Maria Liz não fala sobre arte como quem comenta entretenimento. Ela fala como quem procura respostas.
E talvez seja exatamente isso que a aproxime tanto da geração Z, uma geração frequentemente retratada como ansiosa, hiperconectada e fragmentada, mas que também desenvolveu uma habilidade rara: transformar sensações coletivas em linguagem estética.
Os memes, os discos, os vídeos curtos e verticais, os filmes revisitados, os surtos compartilhados nas redes sociais. Tudo vira sintoma de alguma coisa maior.
Maria percebe isso.
E escreve a partir disso.
Maria Liz, câmera e ação
O cinema apareceu em sua vida não como fuga, mas como ferramenta de leitura. Estudante de Comunicação Social com habilitação em Audiovisual, ela passou a enxergar filmes como extensões emocionais de fenômenos sociais.
Em vez de apenas consumir cultura, começou a analisá-la como espelho do comportamento humano. A trilha sonora de um filme, a estética de um álbum, a obsessão coletiva por determinada série ou artista. Nada parecia superficial demais para escapar de sua atenção.
Foi dessa inquietação que nasceu, em 2024, o perfil digital “euexistow”, espaço criado no Instagram para experimentar uma escrita mais íntima, menos presa aos formatos tradicionais e mais próxima das sensações que atravessam a juventude contemporânea. Ali, Maria Liz passou a publicar reflexões sobre música, tecnologia, cinema e comportamento, enquanto misturava opiniões, poesias e observações pessoais sobre o cotidiano.
Não demorou para que o ambiente jornalístico também moldasse sua escrita.
Durante quase dois anos, ela integrou o Grupo Dial Natal atuando nos bastidores da produção audiovisual. Editava vídeos, participava de gravações, desenvolvia peças de design e acompanhava o ritmo intenso da redação. Funções operacionais, à primeira vista, mas quem já viveu uma redação sabe que não existe espectador naquele ambiente. Todos acabam contaminados pela urgência dos fatos.
“A notícia em si é intrigante. Precisamos estar atentos para além dos acontecimentos, buscar entender cada fenômeno”, afirma.
Há algo de tipicamente contemporâneo em Maria Liz. Não apenas pela idade ou pelas referências culturais que carrega, mas pela forma como mistura linguagens sem pedir licença. Ela escreve como quem pensa em imagens. Analisa música como quem investiga comportamento. Fala sobre cinema como quem comenta política. E talvez por isso sua chegada ao Portal 98 aconteça de forma tão natural.
A partir de agora, Maria Liz passa a assinar semanalmente a coluna “Retrato Z”, um espaço dedicado a artigos imersivos sobre cultura pop, subjetividade humana, música, literatura, comportamento e os fenômenos que atravessam a juventude contemporânea. Mais do que comentar tendências, a proposta da coluna é observar os sinais de uma geração que transformou a internet em extensão da própria identidade.
Retrato Z: o nome não é aleatório
“Retrato Z” nasce justamente da tentativa de fotografar um tempo em movimento. Uma geração que consome informação em segundos, mas que também vive crises profundas de pertencimento, ansiedade e identidade. Uma geração que debate saúde mental no TikTok, revive discos antigos como manifesto emocional e transforma filmes em códigos coletivos de interpretação do mundo.
Maria Liz se propõe a escrever sobre tudo isso.
E talvez sobre aquilo que ainda não sabemos nomear.
Porque alguns cronistas observam acontecimentos. Outros observam pessoas. Maria parece interessada no intervalo entre os dois — aquele espaço invisível onde cultura, comportamento e emoção se encontram antes de virar tendência, manchete ou memória coletiva.
No fim das contas, “Retrato Z” não será apenas uma coluna sobre jovens.
Será sobre o tempo.
E sobre o que ele está fazendo com todos nós.