Uma mulher de 37 anos foi presa em Joinville, no norte de Santa Catarina, após passar 14 meses se apresentando como uma adolescente de 12 anos e convencer uma família de que era vítima de abusos. Durante o período, ela ganhou quarto próprio, presentes, ajuda financeira e chegou a ser tratada como filha pelo casal que a acolheu.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, a suspeita foi presa em flagrante na terça-feira (2), no distrito de Pirabeiraba, pelos crimes de falsa identidade e estelionato. A investigação aponta que ela utilizava o nome Gabriele e afirmava ter fugido do Pará para escapar de uma situação de violência.
Festa de aniversário simbolizou confiança da família
O nível de confiança construído pela mulher chegou ao ponto de a família organizar uma festa para comemorar seus supostos 12 anos de idade.
De acordo com o delegado Rodrigo Gusso, responsável pelo caso, a família acreditava genuinamente que estava acolhendo uma adolescente em situação de vulnerabilidade.
“A família tem um bom poder aquisitivo. Ela teve festa para comemorar o aniversário dos 12 anos, pois disse quando chegou que tinha 11 anos”, afirmou o investigador.
O vínculo emocional criado era tão forte que a suspeita passou a integrar completamente a rotina da casa, recebendo moradia, alimentação, roupas, presentes e outros itens pessoais.
Comportamento infantil ajudava a sustentar a fraude
Segundo a investigação, a mulher reforçava diariamente a identidade falsa que havia criado. Ela brincava de boneca, fazia desenhos infantis e utilizava chupeta, mamadeira e objetos associados à infância.
Para a polícia, o comportamento infantilizado era fundamental para afastar suspeitas e fortalecer a narrativa construída ao longo dos meses.
“Ela vivia efetivamente como uma adolescente. O comportamento era infantilizado e compatível com a idade que dizia ter”, destacou o delegado.
Além disso, sempre que surgia a possibilidade de formalizar uma adoção, a suspeita apresentava justificativas para impedir qualquer procedimento oficial.
Ela alegava que um suposto pai abusador poderia encontrá-la caso sua situação fosse regularizada, argumento que sensibilizava a família e interrompia as tentativas de formalização.
Suspeitas começaram após alerta de familiar
O caso veio à tona na semana passada, quando um parente das vítimas passou a desconfiar da história apresentada pela mulher.
Ao realizar buscas por conta própria, ele encontrou indícios de que a suposta adolescente já teria aplicado um golpe semelhante no Rio de Janeiro. A informação foi repassada à Polícia Civil, que iniciou a investigação.
Quando os policiais chegaram à residência, encontraram uma situação que demonstrava o grau de envolvimento emocional criado pela suspeita.
Segundo o delegado, a mulher que exercia o papel de mãe teve dificuldade para acreditar na fraude mesmo após a ação policial.
“A pessoa que a acolheu como filha inicialmente não acreditou no que estava acontecendo”, relatou Gusso.
Transferências via Pix também são investigadas
Antes mesmo de morar oficialmente na residência, a mulher já recebia ajuda financeira da família.
De acordo com a polícia, ela solicitava dinheiro e transferências via Pix, que eram direcionadas para contas de terceiros. O valor total movimentado ainda está sendo apurado.
A suspeita possuía um quarto decorado exclusivamente para ela e era tratada como integrante da família.
Confissão revelou verdadeira identidade
Levado à delegacia, o caso tomou outro rumo. Confrontada com as informações reunidas pelos investigadores, a mulher abandonou a identidade falsa e confessou a fraude.
Ela informou seu verdadeiro nome, apresentou CPF e revelou que é natural do Ceará, embora afirmasse ser do Pará.
Durante o interrogatório, relatou ter tido uma infância difícil e admitiu que utilizava identidades falsas para conseguir ajuda e acolhimento.
Segundo o delegado, a confissão chamou atenção pela coerência e riqueza de detalhes apresentados.
Polícia investiga possíveis vítimas em outros estados
As investigações apontam que a mulher pode ter aplicado golpes semelhantes em diferentes regiões do país.
Há registros relacionados a ocorrências em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul.
Ela permanece presa no Presídio Regional de Joinville, enquanto a Polícia Civil apura o valor total recebido por meio das transferências financeiras, a participação de terceiros nas movimentações e a possível existência de outras vítimas.