O banqueiro Daniel Vorcaro decidiu trocar o advogado responsável por sua delação premiada após uma sequência de derrotas nas investigações, desgaste dentro da prisão e o fracasso inicial das negociações com as autoridades. A mudança na defesa ocorreu depois que a Polícia Federal rejeitou a proposta de colaboração apresentada pelo empresário, que também passou a reclamar das condições da cela e da condução de sua estratégia jurídica.
Segundo o Estadão, a insatisfação de Vorcaro aumentou nas últimas semanas diante da percepção de que a tentativa de colaboração não trouxe os benefícios esperados. Em vez de aliviar sua situação, o banqueiro viu novas operações da Polícia Federal avançarem e o cerco atingir integrantes de sua própria família.
Prisão do pai
Um dos momentos mais delicados ocorreu em 14 de maio, quando a Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, durante a sexta fase da Operação Compliance Zero. A operação provocou forte irritação em Daniel Vorcaro, que teria relatado a interlocutores sentir-se vítima de uma “quebra de confiança” por parte dos investigadores.
A avaliação de pessoas próximas à família é que a prisão do pai foi interpretada como um recado de que a proposta de delação apresentada era considerada insuficiente pelas autoridades.
Na visão de investigadores, a colaboração entregue por Vorcaro era seletiva e omitia informações que já haviam sido obtidas pela investigação por meio do celular do banqueiro e de outras diligências. Interlocutores admitem que a primeira versão do acordo era uma espécie de “delação light”, elaborada com cautela pelo receio de que ele permanecesse preso mesmo após colaborar.
Reclamações sobre cela e defesa
A situação piorou na última segunda-feira, 18, quando Vorcaro foi transferido de uma cela especial para uma cela comum na carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. No dia seguinte, durante visita da irmã, Natália, ele reclamou das condições do local e também demonstrou insatisfação com a condução da defesa.
O banqueiro também demonstrou preocupação com o embate entre seu advogado e o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Na avaliação dele, a tensão entre ambos estaria influenciando decisões desfavoráveis no processo e funcionando como um sinal para mudança na equipe jurídica.
Proposta de delação
O cenário se agravou ainda mais na noite de quarta-feira, 20, quando a Polícia Federal informou a rejeição da proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro. A Procuradoria-Geral da República também rejeitou o acordo naquele formato, embora tenha mantido aberta a possibilidade de continuidade das negociações e concedido prazo para complementação das informações.
Mesmo com a sinalização positiva da PGR, a permanência de Juca na defesa tornou-se insustentável nos bastidores. Interlocutores avaliam que a colaboração só avançará caso Vorcaro decida apresentar relatos mais aprofundados sobre os crimes investigados.
Com a saída de José Luís de Oliveira Lima, o caso seguirá sob responsabilidade do advogado Sérgio Leonardo, que acompanha o banqueiro desde o início das investigações e mantém relação antiga de confiança com ele. Ainda está em avaliação a contratação de um novo advogado para liderar as negociações da delação premiada.
Após a mudança na defesa, André Mendonça autorizou o retorno de Vorcaro à cela especial da PF, espaço que havia sido preparado inicialmente para receber o ex-presidente Jair Bolsonaro e que vinha sendo utilizado durante as tratativas do acordo de colaboração.