
Por Tiago Rebolo
Seis em cada dez pacientes com Covid-19 que são internados em leitos críticos da rede pública de saúde do Rio Grande do Norte morrem no hospital, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) e do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Lais/UFRN).
Consultada pelo PORTAL DA 98 FM, a plataforma “Regula RN”, que monitora em tempo real a ocupação dos leitos para Covid no Estado, mostrava na tarde desta quarta-feira (5) que, no intervalo de um ano, exatamente 60% dos que deram entrada em um leito crítico da rede pública com o novo coronavírus não resistiram à doença.
O dado inclui todos os pacientes que passaram por leitos, não só os que precisaram ser intubados. Os leitos críticos contemplam unidades de terapia intensiva (as UTIs) e semi-intensivas, como as salas de estabilização presentes em unidades de pronto atendimento (UPAs).
O levantamento aponta que, entre 2 de maio de 2020 e 5 de maio de 2021, 6.023 pacientes foram internados em leitos críticos regulados pela Sesap. Desse total, apenas 2.356 (40%) obtiveram alta. O restante, 3.667 (equivalente a 60%), só desocupou o leito após a morte.
Atualmente, a rede pública de saúde regulada pela Sesap contempla 412 leitos críticos em 27 hospitais espalhados por todas as regiões do Estado.
O número apontado no “Regula RN” é próximo da realidade nacional. Dados compilados pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) apontam que 52,9% dos pacientes que precisam ser internados em UTIs da rede pública na pandemia morreram no Brasil até abril deste ano.
As informações sobre a mortalidade nos leitos de terapia intensiva constam da plataforma “UTIs Brasileiras”, criada com o objetivo de orientar gestores de saúde. O sistema reúne dados de 652 hospitais – o equivalente a cerca de 25% das unidades de terapias intensivas no País. São 249 unidades da rede pública monitoradas.
Nos leitos clínicos (de enfermaria), a realidade é diferente. Segundo o “Regula RN”, 94% dos pacientes que vão para um leito de enfermaria recebem alta. Parte desses pacientes, contudo, pode receber alta da enfermaria e ser levado para uma UTI.
O Rio Grande do Norte confirmou até esta quarta-feira 5.580 mortes provocadas pela Covid-19. O número representa 2,4% do total de contaminados com a doença – que já passa de 227 mil. Oficialmente, há 150 mil pacientes recuperados no Estado.
Segundo o “Regula RN”, às 16h desta quarta-feira havia 18 pacientes aguardando liberação de um leito crítico, todos na Região Metropolitana de Natal. A taxa de ocupação dos leitos estava em 89%, com 42 leitos disponíveis. Apesar de haver mais leitos disponíveis do que pacientes aguardando, a fila não está tecnicamente zerada porque nem todos os leitos são do perfil adequado ou estão na mesma cidade em que o paciente, o que exige transferência.
Números
Leitos críticos:
Altas: 2.356 (40%)
Óbitos: 3.667 (60%)
Leitos clínicos:
Altas: 7.402 (94%)
Óbitos: 442 (6%)
Entre 02/05/2020 e 05/05/2021
Fonte: Regula RN – Sesap e Lais/UFRN
Na rede pública, paciente vai para a UTI em estado mais grave, explica médico
O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN), Geraldo Ferreira, explica ao PORTAL DA 98 FM que, de modo geral, cerca de 35% dos pacientes que são internados em UTI vão a óbito na rede pública. No caso das UTIs dedicadas ao tratamento de Covid-19, o índice é maior por uma série de motivos, sendo o principal deles a demora no atendimento.
O médico afirma que, em razão da quantidade insuficiente de leitos para atender a demanda, o paciente demora mais tempo para chegar à UTI porque precisa aguardar em uma fila de regulação. Enquanto isso, muitas vezes, o paciente fica internado de forma inadequada em uma UPA ou leito clínico que não oferece a assistência necessária. “A demora eleva o risco de morte”, aponta o presidente do Sinmed-RN.
Soma-se a isso, ressalta Geraldo Ferreira, a própria gravidade da doença. No caso da Covid-19, pacientes que precisam de UTI normalmente tem comorbidades associadas, como diabetes ou hipertensão, o que agrava o quadro e faz com o que paciente inspire mais cuidados.
O presidente do Sinmed-RN acrescenta, ainda, que pacientes não recebem a assistência adequada em hospitais de campanha. Ele ressalta que as estruturas são “improvisações” emergenciais e que dispõem de equipes técnicas pouco experientes devido à pressa na formação de mão de obra.
“Temos um número baixo de especialistas em terapia intensiva. Finda pegando profissionais mais jovens, que dão seu suor, seus conhecimentos, mas carecem da experiência que só o tempo traz e que dá repercussão no tratamento, na recuperação dos pacientes”, explica.
Giselda Trigueiro é exemplo na rede pública de baixa mortalidade
Apesar do drama da rede pública em geral, o presidente do Sinmed-RN, Geraldo Ferreira, chama atenção para o exemplo do Hospital Giselda Trigueiro, da rede pública estadual. Ele afirma ter realizado uma inspeção no hospital na semana passada e constatado que a taxa de mortalidade na UTI da unidade é de apenas 23%.
Ele disse que a razão para o baixo número é a alta rotatividade de pacientes no hospital e a experiência da equipe, que está habituada a tratar doenças infectocontagiosas. Além disso, os profissionais do Giselda Trigueiro têm estrutura melhor para trabalhar, diz o Sinmed-RN, com equipamentos e medicamentos à disposição para administrar nos pacientes.
O PORTAL DA 98 FM aguarda manifestação da Sesap.