Por Saulo Spinelly
Colunista
Na política brasileira, há um roteiro que não muda — apenas os atores e os crachás no peito. Invadir e ocupar as mesas da Câmara e do Senado é um clássico que atravessa governos, ideologias e bandeiras. A prática, quase ritual, serve para o mesmo fim: travar votações, tensionar o ambiente e transformar o plenário em um palco de guerra política.
Nos últimos anos, o script se repetiu com precisão. Em 2017 e 2018, foi a esquerda quem ocupou a Mesa das Casas Legislativas. O objetivo era barrar votações e reagir a decisões judiciais, principalmente ligadas à prisão do ex-presidente Lula e ao que classificavam como “perseguição política”. Para seus protagonistas, tratava-se de “resistência democrática”. Para a direita, vandalismo e afronta às instituições. Movimentos sociais, sindicatos e entidades ligadas à pauta progressista ofereciam apoio aberto. Quem ousasse criticar, recebia o carimbo de “inimigo da democracia”.
Corta para 2025. O cenário é idêntico, mas os personagens mudaram. Agora é a direita que ocupa e invade a Mesa, reagindo a pautas e decisões que julgam abusivas. No discurso, defendem “a liberdade e a Constituição”. Para a esquerda, são golpistas e ameaçadores da ordem. O apoio vem de grupos conservadores e redes sociais. E o que antes era “vandalismo” vira, para os novos protagonistas, “ato legítimo de defesa”.
Essa alternância revela uma lógica implacável: quando na oposição, ocupar espaços de comando e bloquear sessões é ferramenta política válida; quando no governo, a mesma tática se transforma em crime contra a democracia. O nome do ato muda conforme a conveniência.
A história recente oferece exemplos de sobra. O 8 de janeiro de 2023, quando prédios da Praça dos Três Poderes foram invadidos e depredados, não nasceu no vácuo. Antes, em 2016, integrantes do MST e da CUT ocuparam a Câmara contra o impeachment de Dilma Rousseff. Em 2013 e 2017, ministérios foram invadidos, depredados e até incendiados durante protestos. A semelhança nas ações é inegável, mas o enquadramento narrativo sempre depende de quem está no comando.
Essa prática recorrente desnuda a seletividade da memória política no Brasil. Quando a ação parte do “meu lado”, ela é “resistência”; quando vem do adversário, é “golpe”. Não há uma regra de conduta que se mantenha acima das conveniências.
O resultado é um ciclo vicioso: as instituições são tensionadas, o debate é substituído pelo confronto físico e simbólico, e a polarização se retroalimenta. Trocam-se os rostos e os slogans, mas permanece a mesma disposição de usar o espaço institucional como arena de batalha.
No fim das contas, talvez a única constante na política brasileira seja a hipocrisia.