O cigarro volta a moda; entenda o que esse símbolo demonstra sobre padrões da Geração Z

Cigarro. Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Capas de revistas de luxo no nicho da moda, passaram a circular nos últimos meses evidenciando em suas campanhas o uso do cigarro. Esse fato não aparece de maneira transgressora ou provocativa, mas reforça um posicionamento mercadológico colocando o cigarro como artigo de luxo. Figuras importantes para o mercado da beleza e principalmente autocuidado como Hailey Bieber e Kylie Jenner, estamparam desfiles e revistas com o uso intrigante do símbolo que passou décadas sendo alvo de demonização por campanhas de saúde. E agora, aparece escancarado nos punhos das maiores referências para geração Z, não só como personas digitalmente ativas, mas monumentos do movimento de saúde e bem estar wellness.

Em 1920, fumar tornou-se socialmente aceito para as mulheres e a partir desse fenômeno a construção do tabagismo mudou de rota. Propagandas massivas, cigarros próprios para mulheres como o primeiro Marlboro lançado em 1924 com o slogan “Suave como maio”, e a utilização de mulheres socialmente chamativas para época, começaram a circular. Coco Chanel era a figura central desse universo, não como gesto de rebeldia, mas como parte de sua identidade e figura. Na era Hollywoodiana clássica, o ato de sugar, assoprar a fumaça, e segurar o objeto entre os dedos virou parte de uma narrativa cinematográfica utilizada até os dias atuais.

No início dos anos 90 e novos estudos sobre o uso letal dessas substâncias, a maneira que a sociedade observou esse comportamento foi difundido. A estética começou a declinar e um novo horizonte nasceu para a subversão desse glamour, quase como um flerte com a ameaça. O cigarro passou de uma simbologia fina e glamurosa para um movimento de contracultura, rebeldia e desapego com a vida. Kate Moss consolidou essa imagem no contexto do heroin chic em alta na época, e o fotógrafo Mario Testino, dentro do universo de Karl Lagerfeld, ajudou a transformar o cigarro em símbolo de je ne sais quoi, sem sofisticação apenas presença, estado e cotidiano.

Contracultura, consumo e padrões impossíveis 

Dados de 2023 do Relatório Covitel, sobre hábitos de consumo dos brasileiros, mostram que a parcela de jovens entre 18 e 24 anos que consomem álcool três ou mais vezes por semana caiu de 10,7%, antes da pandemia de COVID-19, para 8,1% em 2023. Isso significa que padrões de comportamento exagerado por uso de substâncias em gerações anteriores, estabelece um outro prisma e revela a ascendência do desapego por entorpecentes externos, e um apego exagerado ao corpo e bem estar.

Observamos a plastificação em massa dos corpos como forma de reafirmar um status social, estabelecendo um padrão financeiro insustentável no cotidiano da maioria da população. Manter uma rotina pautada na necessidade de milhares de apetrechos para suplementação, academia, yoga, matcha, procedimentos estéticos e skincare, não parece acessível, possível e identitário. A volatilidade das tendências cria uma sensação de não pertencimento e falta de afirmação geracional. Os padrões de imagem nunca estiveram tão exigentes e o mercado tão superaquecido, voltar no tempo para um tempo em que a estética foi cool e glamurosa, desperta inconscientemente uma lembrança de pertencimento adormecida.

O cigarro está sendo colocado como um “luxo acessível”, como um atalho visual para um mundo naturalmente inacessível, ao lado de um corpo repleto de cirurgias de modificação e produtos caros para manter a aparência.  O cigarro cria a ilusão de pertencimento a um mundo exclusivo sem o custo real. Enquanto a alta moda possui barreiras altíssimas.

A L’Officiel revista francesa de moda e luxo, sugere que celebridades não apenas fumam, mas usam o cigarro como atmosfera, atitude, e uma camada adicional de glamour. É uma escolha guiada pela imagem mais do que pela dependência. Mary-Kate Olsen, Lily-Rose Depp, Dua Lipa e Bella Hadid compartilham estéticas distintas, mas têm o cigarro como denominador visual comum.

Agora, o cigarro demonstra uma contracultura das idealizações impossíveis de consumo e beleza e serve de instrumento que demonstra a fragilidade identitária geracional e como figuras e reproduções ainda ditam valores e posições mesmo que visivelmente contraditórios.

Fontes: Exame, Marie Claire e G1.