Empresa ligada a Ciro Nogueira vende fazenda de R$ 18,7 milhões para offshore nos Emirados Árabes

A transação ocorreu em março de 2025 e passou a chamar atenção pela estrutura societária da compradora. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Uma empresa ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) vendeu uma fazenda avaliada em R$ 18,7 milhões, localizada em Pedro II (PI), para uma offshore sediada nos Emirados Árabes Unidos. A compradora é a Arraf International, empresa criada dois meses antes da operação e representada por um advogado que atua para empresas vinculadas ao parlamentar.

A transação ocorreu em março de 2025 e passou a chamar atenção pela estrutura societária da compradora, que está registrada em uma zona franca considerada de baixa transparência quanto à divulgação de seus proprietários. A apuração e da Folha de S.Paulo.

Offshore foi criada pouco antes da compra

Segundo os documentos da operação, a Arraf International foi constituída apenas dois meses antes da aquisição da fazenda.

A empresa tem endereço registrado em uma caixa postal na zona franca do aeroporto de Sharjah, cidade próxima a Dubai. A legislação local não exige a divulgação pública dos proprietários da companhia, o que impede a identificação do beneficiário final do negócio.

Pelos documentos da escritura, a offshore foi representada por Gustavo Frazão, advogado que atua em mais de 20 processos relacionados a outra empresa ligada ao senador.

Advogado atua para empresas ligadas ao senador

Além de prestar serviços jurídicos para empresas vinculadas a Ciro Nogueira, Frazão também ocupa cargo comissionado na Prefeitura de Teresina, administrada por Eliane Nogueira, mãe do senador.

Procurado pela reportagem da Folha de S.Paulo, o advogado não se manifestou.

Já Ciro Nogueira afirmou, por meio de sua assessoria, que nem ele nem integrantes de sua família possuem empresas registradas fora do Brasil.

PF aponta relação entre senador e empresa vendedora

A defesa do senador sustenta que a empresa Fazendas Reunidas Nogueira Lima pertence à sua mãe. No entanto, documentos citados pela Polícia Federal indicam que Ciro Nogueira possuiria 99% do capital social da companhia.

Quem representou a empresa na escritura foi Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador e também investigado pela Polícia Federal.

Segundo a investigação, Raimundo administra a CNLF, empresa que teria recebido recursos relacionados ao esquema investigado envolvendo o Banco Master.

Negócio ocorre durante apuração sobre Banco Master

A venda da fazenda ocorreu no mesmo período em que a Polícia Federal investiga uma suposta relação financeira entre Ciro Nogueira e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

De acordo com a apuração, empresas ligadas a Vorcaro teriam transferido ao menos R$ 6 milhões ao senador entre 2024 e 2025.

A PF investiga se os recursos teriam sido repassados em troca de atuação política favorável aos interesses do banco.

Outras vendas para empresas estrangeiras estão sob análise

A venda da fazenda não é o único negócio envolvendo empresas estrangeiras ligado ao senador.

Em abril de 2025, a CNLF vendeu um apartamento de luxo no bairro Jardim Paulista, em São Paulo, por R$ 6,5 milhões, para uma empresa controlada por uma offshore registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.

Segundo a reportagem, também não é possível identificar o beneficiário final da empresa estrangeira.

Investigação apura repasses e atuação parlamentar

A Polícia Federal investiga a relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro desde a operação realizada em maio deste ano.

Os investigadores apontam indícios de pagamentos mensais, viagens em aeronaves privadas e outras vantagens supostamente oferecidas ao senador.

Em contrapartida, a PF suspeita que o parlamentar teria atuado em defesa de interesses do Banco Master no Congresso Nacional, incluindo a apresentação de proposta que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

A medida ficou conhecida nos bastidores do mercado financeiro como “Emenda Master”.

Ciro Nogueira nega ter recebido recursos ilícitos e afirma que não atuou para beneficiar o Banco Master.