A determinação do Ministério da Justiça para que órgãos do Poder Judiciário devolvam policiais federais cedidos para atuar em gabinetes de magistrados provocou reação dentro da Polícia Federal. Nos bastidores, integrantes da corporação avaliam que a medida pode ter motivação política.
A decisão ocorreu após articulação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O governo afirma que o objetivo é reforçar o efetivo dedicado ao combate ao crime organizado. A apuração é de Roseann Kennedy, do Estadão.
De acordo com a coluna, há cerca de um mês, Lula afirmou que havia determinado o retorno de delegados que estariam atuando fora das funções da Polícia Federal. Posteriormente, o presidente voltou a defender publicamente a medida.
As declarações geraram questionamentos entre policiais federais. Em conversas internas, alguns integrantes da corporação passaram a discutir possíveis motivações para a decisão.
Bastidores citam investigações sensíveis
Entre delegados da PF, surgiu a avaliação de que a medida poderia atingir profissionais envolvidos em investigações de grande repercussão.
Um dos nomes mencionados nos bastidores foi o do delegado Thiago Marcantonio, assessor do ministro do STF, André Mendonça, em inquéritos relacionados a fraudes no INSS e ao caso Banco Master.
Segundo relatos, integrantes da corporação avaliam que uma medida ampla evitaria que o governo fosse acusado de direcionar a decisão a um único servidor.
Ofícios começaram a ser enviados
Os primeiros ofícios já foram encaminhados ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a tribunais regionais federais. O Ministério da Justiça informou que a medida integra um processo iniciado em abril para reforçar as atividades finalísticas das forças de segurança.
De acordo com a pasta, cerca de 100 pedidos de retorno foram enviados a mais de 50 órgãos das administrações federal, estadual e municipal.
Associação critica medida
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) manifestou preocupação com a decisão. Em nota, a entidade afirmou que a retirada dos delegados pode prejudicar a cooperação entre instituições e reduzir a contribuição técnica prestada por policiais federais em funções consideradas estratégicas para o Estado.
Além disso, a associação argumenta que a experiência adquirida por delegados em outros órgãos fortalece o diálogo institucional e beneficia a própria Polícia Federal.
Mudanças também atingiram investigação do INSS
A Polícia Federal já havia promovido alterações em investigações consideradas sensíveis. Recentemente, a corporação transferiu a coordenação do inquérito que apura descontos indevidos em benefícios do INSS para a Coordenação de Inquéritos dos Tribunais Superiores (Cinq).
Na ocasião, a PF informou que a mudança buscava ampliar o apoio técnico às apurações e garantir uma estrutura especializada para conduzir casos de maior complexidade.