RN 2026: Três palanques, uma disputa e o xadrez antecipado da sucessão

Se o calendário oficial ainda não permite o uso da palavra “campanha”, a prática já mostra: a eleição de 2026 começou. Fotos: Reprodução

Por Saulo Spinelly
Colunista

Faltando ainda mais de um ano para as eleições de 2026, o Rio Grande do Norte já respira campanha. Sob o disfarce de “seminários”, “rotas” e “encontros regionais”, para não ferir o calendário da Justiça Eleitoral, os principais pré-candidatos se lançam no jogo, testam forças, medem suas bases e, sobretudo, mostram que a disputa está longe de ser morna.

O PL: Rogério Marinho e o peso do bolsonarismo

Em Natal, o PL encerrou sua série de encontros regionais, o chamado Rota 22, com a presença de Michele Bolsonaro e do presidente da legenda, Valdemar da Costa Neto. Se a justificativa oficial era “ouvir a população”, a prática foi o lançamento de Rogério Marinho como o nome bolsonarista para o governo estadual.

Valdemar, pragmático como sempre, enalteceu a liderança nacional de Rogério, mas ressaltou que “o RN precisa mais dele aqui”, sinalizando claramente que o partido aposta todas as fichas na candidatura ao Executivo local. No palanque, Michele Bolsonaro deu o tom agressivo contra Lula, chamando-o de “pinguço”, enquanto aliados como o deputado General Girão defenderam a anistia dos presos do 8 de janeiro.

Com deputados estaduais e federais reforçando o evento, o PL mostrou musculatura, mas também o roteiro conhecido: dependência da narrativa bolsonarista e da força eleitoral de Jair Bolsonaro para manter coesa sua base.

O PT: Fátima no Senado, Cadu ao governo

Do outro lado, o PT também promoveu seu ato político. Na Arena das Dunas, militância em peso e a presença do presidente nacional Edinho Silva marcaram a posse da deputada Isolda Dantas e da vereadora Samanda Alves na direção estadual.

Mas a principal mensagem foi clara: a governadora Fátima Bezerra vai disputar o Senado e Cadu Xavier, atual secretário de Estado, será o candidato do PT ao governo. A fala de Cadu deixou de lado o tom técnico e assumiu o político. Mirando o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, ele ironizou: “Pode botar chapéu de couro, mas não vai ganhar o povo do Rio Grande do Norte”. Foi o recado mais direto até agora ao adversário que cresce no Seridó e no Oeste.

O PT mostrou unidade para a largada, embora os desafios estejam na construção de alianças. A grande dúvida é se conseguirá trazer partidos do Centrão, hoje muito mais próximos do campo de Rogério Marinho.

O PSD: Zenaide como peça-chave

Enquanto PT e PL polarizam, o PSD preferiu caminhar em faixa própria. A senadora Zenaide Maia, em seminário que reuniu prefeitos de todas as regiões, exibiu sua principal arma: as emendas parlamentares. Ao destacar que destinou recursos para todos os 167 municípios, ela se consolidou como “a senadora dos prefeitos”, transitando com naturalidade entre bases governistas e oposicionistas.

Com prefeitos da Grande Natal, do interior e especialmente de Mossoró — levados por Allyson Bezerra —, Zenaide mostrou capilaridade e força política. Diferente dos demais palanques, evitou ataques diretos, preferindo a imagem de agregadora. No discurso, pediu o “primeiro voto” para o Senado, enquanto lideranças a projetavam como favorita absoluta à reeleição.

O xadrez de 2026: três candidaturas no horizonte

O tabuleiro se organiza para uma eleição com três eixos claros:

Rogério Marinho (PL) sustentado pelo bolsonarismo;

Cadu Xavier (PT) amparado pela máquina estadual e pelo lulismo;

Allyson Bezerra (UB), cada vez mais próximo de Zenaide e com forte presença regional.

Nesse desenho, Zenaide emerge como nome central — cortejada tanto por governistas quanto por opositores —, capaz de dialogar com todos os lados graças ao peso das emendas.

Correndo por fora, o ex-prefeito Álvaro Dias tenta se firmar, mas ainda não conseguiu reunir apoios robustos que transformem sua movimentação em projeto competitivo.

Conclusão: o ensaio da guerra eleitoral

O que se viu neste final de semana foi um ensaio aberto da guerra de 2026. De um lado, o PL radicalizando contra Lula. Do outro, o PT se armando com a força da militância. E no meio, o PSD, pragmático, cuidando de consolidar Zenaide como peça-chave em qualquer composição.

Se o calendário oficial ainda não permite o uso da palavra “campanha”, a prática já mostra: a eleição de 2026 começou. E o RN será palco de uma disputa tripolar, em que alianças, ataques e o peso das emendas parlamentares podem definir o futuro político do Estado.