Após anunciar o bloqueio de R$ 31,3 bilhões em gastos públicos, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, enfrentou forte reação do mercado à decisão de elevar alíquotas do IOF sobre operações financeiras. A medida, especialmente a taxação de investimentos no exterior feitos por fundos brasileiros, foi interpretada como tentativa de controle de capital, gerando instabilidade. As declarações foram concedidas ao jornal O Globo.
Diante da repercussão negativa, Haddad convocou uma reunião emergencial com sua equipe e decidiu recuar parcialmente, restabelecendo a isenção para esses investimentos. A mudança visou acalmar o mercado e afastar dúvidas sobre a intenção do governo.
A decisão gerou críticas internas. Integrantes do governo consideraram que houve falha na estratégia de comunicação e que a medida não foi articulada com setores importantes, como a Secretaria de Comunicação.
Segundo Haddad, a proposta foi discutida com o presidente Lula e faz parte de uma agenda de revisão do gasto tributário. Ele argumenta que o Brasil tem renúncias fiscais em níveis alarmantes e que a medida visava ampliar receitas de forma coordenada com outras ações fiscais.
“A comunicação nunca participou dos relatórios bimestrais (de avaliação de receitas e despesas, como o da última quinta). Ela é que julga a pertinência de se envolver num tema ou outro. Isso foi debatido na mesa do presidente. E o presidente convoca os ministros que ele considera pertinentes para o caso. Essa é a atribuição do presidente da República”, afirmou o ministro.
Apesar do recuo, Haddad afirma que o governo continuará calibrando medidas regulatórias, como CRIs, CRAs, LCIs e LCAs, e que revisões pontuais fazem parte do processo técnico. Ele negou que outras mudanças estejam previstas por ora, mas reforçou que o diálogo com a sociedade é constante.
Sobre críticas à condução da economia, Haddad declarou que ser transparente e revisar decisões com base em evidências fortalece a credibilidade da equipe econômica. Disse ainda que, diferente de propostas estruturais como a taxação de fundos offshore e a reforma do Imposto de Renda, o episódio recente justificou uma correção imediata.
Questionado sobre a comunicação do governo, Haddad minimizou a ausência da Secom na divulgação do decreto e reiterou que o tema foi tratado diretamente na mesa do presidente Lula.
Sobre a relação com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, Haddad afirmou que ele não participou da elaboração do decreto, mas que há confiança mútua e entendimento da necessidade de harmonia entre política fiscal e monetária.
Ele também comentou a dificuldade de transformar bons indicadores econômicos — como crescimento acima das expectativas e geração recorde de empregos — em popularidade para o governo. Para ele, a extrema direita mobiliza pautas culturais que influenciam a percepção pública além da economia.
Haddad defendeu a continuidade de programas sociais e afirmou que medidas como vale-gás ou redução na conta de luz não comprometem o controle da inflação, pois visam reduzir desigualdades históricas.
Sobre a projeção de falta de recursos no Orçamento de 2027, o ministro disse que o momento atual é de execução das medidas aprovadas no fim de 2024 e apontou preocupação com a judicialização de benefícios como o BPC.
Ele destacou que o equilíbrio das contas públicas depende fortemente do Congresso, que hoje tem poder decisório ampliado, refletindo uma mudança institucional no país.
Quanto à relação com a Casa Civil, Haddad afirmou que houve divergências no início do governo, mas que hoje há alinhamento com Rui Costa e Gleisi Hoffmann. Negou haver pressão interna por aumento de gastos.
Sobre eleições futuras, afirmou não ter planos de disputar cargos em 2026 e reiterou que a possível reeleição de Lula segue sendo o cenário mais provável. Também elogiou a parceria com Geraldo Alckmin, considerando a aliança acertada e estratégica.
Haddad concluiu que permanece no cargo por estar comprometido com entregas relevantes na economia e na estrutura do Estado, como a reforma tributária e a valorização de políticas sociais.