Do 1% nas pesquisas à Prefeitura: A vitória improvável de Zohran Mamdani em Nova York

Ele foi eleito prefeito de Nova York na última terça-feira (4). Foto: Reprodução/Instagram

Saulo Spinelly
Comentarista

Nova York — Em uma das reviravoltas políticas mais surpreendentes dos últimos anos, Zohran Mamdani venceu as eleições para a prefeitura de Nova York nesta terça-feira (4), derrotando o ex-governador Andrew Cuomo por mais de oito pontos percentuais. Com 50,4% dos votos e mais de um milhão de eleitores mobilizados, o jovem deputado estadual de 34 anos tornou-se não apenas o primeiro muçulmano a comandar a maior cidade dos Estados Unidos, mas também provou que é possível vencer o establishment, mesmo quando todos apostam contra você.

A trajetória de Mamdani parece saída de um roteiro improvável. Nascido em Uganda, filho de mãe indiana e pai ugandês, chegou aos Estados Unidos aos sete anos e cresceu no Queens. Antes de ingressar na política, teve uma breve carreira como rapper sob o nome artístico “Young Cardamom” e trabalhou como conselheiro habitacional, ajudando famílias a evitar execuções hipotecárias durante crises financeiras.

O que mais surpreende não é apenas sua origem ou idade, mas o fato de ter conseguido vencer uma das máquinas políticas mais poderosas do país. Cuomo, armado com milhões de dólares de empresários e até mesmo o apoio de Donald Trump (que chamou Mamdani de “comunista”), parecia imbatível. A comunidade empresarial de Nova York gastou mais de 20 milhões de dólares tentando derrotá-lo através de comitês de ação política.

A fórmula improvável: pragmatismo envolto em ousadia

Mamdani pode se autodeclarar socialista e ser filiado aos Socialistas Democráticos da América, mas sua campanha não ficou presa em debates ideológicos abstratos. Em vez disso, construiu uma narrativa poderosa ao redor de problemas concretos que afetam o cotidiano dos nova-iorquinos: o jovem profissional que não consegue pagar o aluguel, a mãe que precisa de creche acessível, o trabalhador que gasta horas e uma fortuna no transporte público.

Suas propostas foram diretas e fáceis de entender: congelamento dos aluguéis em imóveis com controle de preços, transporte público gratuito, creches universais desde o nascimento, supermercados municipais para reduzir o custo dos alimentos. Eram ideias progressistas, sim, mas apresentadas como soluções práticas para crises reais. Como observou um analista político, Mamdani conseguiu “reunir o apoio dos eleitores frustrados com o sistema e esquecidos pelas estruturas tradicionais de poder.”

Enquanto Cuomo inundava a televisão com anúncios e se recusava a falar com a imprensa, realizar eventos públicos ou participar de debates, Mamdani estava nas ruas. Visitou comunidades por toda a cidade, construindo uma imagem de político acessível e genuinamente interessado nas pessoas. Sua mensagem era clara: o imigrante que desafiou o establishment para defender a classe trabalhadora.

A comunicação que conquistou a Geração Z

Se a estratégia de rua foi fundamental, a comunicação digital foi o trunfo decisivo. Mamdani entendeu que vencer em Nova York em 2025 exigia dominar as redes sociais, e foi exatamente o que fez. Sua campanha apostou no carisma do candidato em vídeos curtos que uniam entretenimento e informação política, tudo embalado em uma identidade visual ousada e impossível de ignorar: fontes não convencionais, cores vibrantes e uma estética de colagem que gritava juventude e renovação.

Foi através dessa comunicação viral que Mamdani conquistou os eleitores mais jovens, a chamada Geração Z, que compareceu às urnas em números recordes. A eleição registrou mais de 2 milhões de votantes, a maior participação desde 1969. Seu vídeo de vitória, publicado imediatamente após o resultado, mostrava as portas de um metrô se abrindo enquanto uma voz anunciava: “Próxima e última parada: City Hall” — uma referência à estação próxima ao prédio da prefeitura.

Mais que um fenômeno local

Em seu discurso de vitória no Brooklyn, Mamdani não apenas celebrou a conquista, mas colocou sua eleição em um contexto mais amplo de resistência. “Se há alguma forma de aterrorizar um déspota, é desmantelando as próprias condições que lhe permitiram acumular poder”, disse, mirando diretamente em Donald Trump. “Não é apenas assim que paramos Trump, é assim que paramos o próximo.”

E em um gesto típico de sua comunicação destemida, mandou um recado direto ao presidente: “Donald Trump, já que sei que está assistindo, tenho quatro palavras para você: aumente o volume [Turn the volume up]”, uma expressão que pode ser traduzida como “preste atenção” ou “fique esperto.”

A vitória de Mamdani já está sendo analisada como um possível modelo para a esquerda progressista em outros cantos dos Estados Unidos. Ela demonstra que é possível desafiar candidatos do establishment mesmo em disputas fora dos centros urbanos dominados pelos democratas tradicionais. A receita? Menos retórica ideológica, mais propostas práticas. Narrativa forte com inimigos claramente identificados. E uma comunicação viral, humanizada e impossível de ignorar.

Para os cozinheiros, entregadores e motoristas de táxi que Mamdani mencionou em seu discurso, os trabalhadores “muitas vezes ignorados e marginalizados em uma das cidades mais caras do mundo” a mensagem foi clara: a política pode, sim, ser feita de forma diferente. E pode vencer.

Agora, aos 34 anos, o prefeito mais jovem de Nova York em mais de um século terá que provar que suas promessas progressistas podem se transformar em políticas efetivas. O desafio é enorme, mas se há algo que Zohran Mamdani já provou é que subestimá-lo é um erro. Afinal, ele já fez o impossível uma vez.

*As opiniões expressadas no artigo acima não manifestam, necessariamente, o posicionamento da 98 FM Natal. O conteúdo é de responsabilidade do autor.